Nunca tão poucos fizeram tão mal a tantos.
Nunca tão poucos fizeram tão mal para tantos.
“Em três coisas a vida repousa: no direito, que está estabelecido na Lei; sobre a Verdade, que é apresentada no mundo; e pelo amor de um homem por outro, que está expresso em seu coração.”
Simon Macabeu em “Os meu gloriosos irmãos” de Howard Fast
Por Paulo Rosenbaum
A ideia da militância na seara da comunicação de massas é, em si, paradoxal. Se a neutralidade idealizada não faz sentido no processo de informação, ser partidário de uma ideologia e defende-la às custas do sacrifício da honestidade intelectual, faz menos ainda. O CEO da BBC renunciou depois que houve o vazamento de um dossiê no qual se explicitava a instrumentalização das informações. Tratava-se de um manual cuja tônica era o controle da linguagem nas redações para defender “causas” e apoiar alguns segmentos ideológicos aos quais a direção da emissora mostrava simpatia.
Decerto não somos observadores livres de preconceitos, mas exatamente por isso torna-se vital munir-se do pensamento dialógico se desejamos, efetivamente, entrar no debate e promover as trocas reflexivas.
É essencial que conheçamos as fontes primárias, e que as opiniões não sejam tomadas como fatos. É para isso que recorremos à uma velha e desprestigiada conhecida: a hermenêutica. A arte de interpretar é um dos fundamentos da informação veiculada com acurácia.
Militar na atividade de informar é torcer, como aduziu recentemente o preciso e arguto editorial”O perigo do jornalismo militante” publicado neste Estadão em 12/11/2025. Se é inevitável que torçamos, que sejamos menos auto condescendentes e mais autocríticos com as nossas paixões.
Pois fica evidente que parte das grandes tecnologias, plataformas digitais. constituem as forças que estão financiando a informação selecionada – o subestimado viés sedutor da I.A. e seus algoritmos denunciados em recente artigo assinado por Eric Schmidt – são efetivados às custas do controle da linguagem.
Sim, há uma relação direta entre difamar Israel e vilificar os judeus – usando ou não a manobra ardilosa de chama-los de “sionistas” para contornar o crime — com as perseguições, ataques e massacres antissemitas de inspiração filonazista-jihadista que agora brotam pelo mundo. Afinal, foram dois anos de exortações e denuncias irresponsáveis não comprovadas, em outras palavras, conclamações à violência racista.
Mas não se limita a isso. Ficam também evidentes outras omissões: por exemplo, noticiários que calam sobre o regime misógino do Irã. Que são cordatos quanto aos representantes de países sem o menor vestigio de democracia para integrar a comissão de direitos humanos da ONU. Ou sobre a condescendência com que são tratados os massacres de cristãos na Nigéria, a perseguição da minoria muçulmana dos uygures na China, ou ainda sobre a tentativa de eliminar os druzos na Síria. Por último, o silêncio tácito – ou seria melhor chamar de uma neutralidade simulada — acerca dos violadores contumazes dos direitos humanos, como por exemplo o atual regime turco, e as ditaduras da Venezuela, Coreia do Norte em Mianmar e Afeganistão. As denúncias contras as tiranias deveriam ser muito mais frequentes e contumazes por parte da imprensa ocidental.
E elas estão enraizadas e distribuídas em regimes opressores tanto na esquerda, como na direita, onde supremacistas e conspiracionistas geralmente apresentam-se como uma alternativa.
Apenas por curiosidade, convido os leitores a acessar e avaliem se o tempo dedicado ao combate das tiranias corresponde ao que o mundo deve saber.
O monopolização dos holofotes condena alguns assuntos à sombra permanente. Pois quem, senão a imprensa, teria os meios para cobrar os políticos que se insinuam nas pautas populistas? Quem poderia fazer um contraponto às promessas jamais cumpridas? Quem deve se insurgir contra os estelionatos eleitorais e apontar os programas partidários fantasmas?
Os vieses políticos ideológicos, e de outras naturezas são tais, e tantos, que doravante talvez se torne necessário — como nos artigos científicos em revistas revisadas por pares — exigir a declaração se há ou não conflito de interesses também na publicação de materiais jornalísticas.
A prevalência das preferências não surge espontaneamente. Obedecem uma tática, seja sob a terminologia “algoritmo”, seja sob qualquer outro nome conferido ao enciclopedismo artificial — um recurso que se confunde com uma função cognitiva superior como acontece com a inteligência acumulativa dos seres humanos. E ainda tomado como a “última palavra”, como se houvesse tal coisa no campo das ideias.
E os escândalos que vem abalando a imprensa são apenas o fio de um longo novelo de problemas onde não se enxerga bem o fio da meada. Fica auto evidente por que tal iniciativa não virá através da mobilização de governos, ONGs, ou das grandes corporações. Seria necessário organizar um grupo internacional arregimentado através da sociedade civil e encontrar algum consenso mundial de que há urgência nas transformações.
Quem sabe assim as pessoas voltem a encontrar e reconhecer fontes confiáveis nas mídias tradicionais, e não escolham ser instrumentalizadas pelas redes sociais e consórcios de influenciadores rústicos. A despeito da famosa observação rabugenta do educador canadense Macluhan Macluhan, de que “todos os meios de comunicação existem para preencher nossas vidas com percepções artificiais e valores arbitrários”, devemos confiar que, um outro caminho talvez seja viável. E ele será construído através de aproximações sucessivas, até que seja possível chegar à tão almejada transparência, e a um maior equilíbrio no campo das informações, afinal a fé também pode ser encarada como a convicção da esperança.
Hoje, último dia da festa de Chanuká, uma comemoração cujo simbolismo expressa a permanência e a determinação frente aos desafios da opressão e da tirania, e ela nos lembra, principalmente, que é fundamental agir, pois só as ações preventivas podem coibir o protagonismo dos intolerantes e de seus porta-vozes.
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