Lingard superou depressão e lesões para seguir no futebol – 12/03/2026 – Esporte
Anunciado no último dia 6 como novo reforço do Corinthians, o meio-campista inglês Jesse Lingard, 33, ainda provoca olhares desconfiados mesmo com um currículo de peso no futebol.
A trajetória, que inclui uma longa passagem pelo Manchester United, com o auge vivido entre 2016 e 2018, e a disputa da Copa do Mundo da Rússia como titular, não assegura ao experiente jogador o status de outros europeus que já pisaram no país.
Lingard estava sem clube após atuar por dois anos pelo FC Seul, da Coreia do Sul, e assinou contrato até dezembro com o clube brasileiro —renovável por mais uma temporada caso atinja a meta de jogos pré-estipulada.
“Antes de se transferir para a Coreia [em fevereiro de 2024], ele ficou oito meses sem clube, o que refletiu em uma queda brusca em seu desempenho e em más atuações no Nottingham Forest. A forma física dele foi um grande problema. Três anos depois, é difícil imaginar que ainda esteja em nível para causar algum impacto no Brasil”, disse à Folha o jornalista inglês Gary Jacob, do The Times.
Apesar da influência de Memphis Depay, com quem atuou no United entre 2015 e 2016, a admiração pelo futebol brasileiro é antiga. Ela foi nutrida pelo brasileiro Rafael Leão, ex-jogador com quem atuou nas categorias de base do clube inglês.
“Quando cheguei à Inglaterra, inicialmente não nos aproximamos. Por ser inglês, ele mantinha uma certa distância, não tinha aquela afetividade natural, mas, conforme o tempo foi passando, ficamos bastante próximos. Ainda não tinha o nome que tem, mas já era considerado uma grande promessa”, lembra à Folha.
“E sempre foi fã do futebol brasileiro. Gostava muito do Ronaldinho Gaúcho, do [Ronaldo] Fenômeno e, posteriormente, do Neymar, que já estava despontando. Ele e os companheiros tinham o Brasil como referência mesmo, respeitavam muito. Tem tudo para dar certo pela forma como joga e se entrega.”
Formado pelos Red Devils, mas com rápidas passagens por outros times ingleses como Leicester, Brighton, Birmingham e Derby County, o jogador conviveu nos últimos anos com uma série de problemas de ordem pessoal e familiar, além de uma luta contra o próprio corpo.
Em 2020, durante a pandemia da Covid-19, a mãe dele, Pamela, foi diagnosticada com uma depressão severa, sendo internada em uma clínica psiquiátrica. O jogador ficou responsável por cuidar dos irmãos mais novos e de toda a família, enquanto ainda precisava lutar para superar críticas de torcedores pelo mau desempenho em campo.
“Estava anestesiado e queria permanecer nesse estado em que não precisava sentir nada”, explicou ao The Guardian. “Eu jogava e sentia como se não existisse, os jogos simplesmente passavam por mim.”
A queda brusca de rendimento acabou levando-o a ser emprestado ao West Ham. Sob o comando do técnico David Moyes, reencontrou o caminho que havia perdido no futebol —marcando nove gols e dando quatro assistências em 16 partidas.
Mas o retorno a Old Trafford com pouco aproveitamento, seguido de uma tentativa ainda mais frustrada de recuperar protagonismo no Nottingham Forest, o fez terminar a temporada 2022/23 sem clube.
O período de parada forçada se tornou ainda mais delicado, já que precisou dedicar atenção e cuidados aos avós, com saúde fragilizada, que participaram diretamente de sua criação quando criança. Ele ainda sofreu com problemas físicos, como uma tendinite severa nos joelhos e no tendão de Aquiles.
“Às vezes jogava com dor e outras vezes estava tão dolorido que não conseguia jogar. A única cura era o repouso, mas, no verão, quando meu contrato terminou, minha avó ficou doente”, contou ao The Times. No mesmo período, foi condenado a 18 meses sem poder dirigir e a uma multa de R$ 400 mil por ser considerado culpado ao dirigir embriagado sua Lamborghini.
A tentativa de volta por cima na passagem na Coreia do Sul teve altos e baixos. Ele conduziu o time de volta à disputa da Champions da Ásia, mas sofreu novas lesões, uma no menisco e outra na coxa, e foi criticado publicamente pelo técnico Kim Gi-dong em razão do mau desempenho. Foram 67 partidas, com 19 gols marcados e 11 assistências no time sul-coreano.
No Corinthians, receberá a simbólica camisa 77, uma alusão ao histórico título estadual conquistado em 1977, que findou o jejum de 23 anos sem títulos do clube. Uma inspiração e tanto contra os desconfiados.



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