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O ser humano sempre quis controlar o amor, e agora espera que a IA faça isso

O ser humano sempre quis controlar o amor, e agora espera que a IA faça isso

Você certamente já viu cartazes em postes com dizeres do tipo “trago a pessoa amada”. Meu lado cético me impede de acreditar na eficiência desse tipo de serviço. Por outro lado, sua enorme oferta sugere que deve existir uma demanda igualmente grande por ele.

Agora esta pode ser mais uma “categoria profissional” ameaçada pela inteligência artificial.

O ser humano sempre tentou “otimizar” relacionamentos e até dominar o amor pela magia. Amuletos, feitiços de atração, rituais de fertilidade e consultas a oráculos aparecem em registros da Mesopotâmia, do Egito Antigo e de culturas greco-romanas.

Mais do que tentativas de interferir no desejo do outro ou no próprio destino afetivo, há uma expectativa de “facilitar” relacionamentos e de manipular algo que, por natureza, resiste ao controle. Afinal, o amor envolve risco, ambiguidade, frustração.

Pela história, diferentes ferramentas foram criadas para tentar reduzir esse desconforto. A mediação também teve destaque, com famílias, anciãos ou líderes comunitários assumindo o papel de aproximar pares, avaliando compatibilidades por critérios como status, parentesco, alianças e sobrevivência.

Não havia escolha livre no sentido moderno, e sim uma curadoria social. O casamento era mais um contrato social do que uma expressão de afeto. A ideia de o indivíduo “encontrar alguém” por seus meios é historicamente recente.

A partir do século XIX, começaram a surgir agências matrimoniais. Com questionários, elas tentavam classificar pessoas por características e temperamentos, tornando a escolha do parceiro um problema de correspondência. Elas são o embrião dos atuais aplicativos de relacionamento.

E assim chegamos aos tempos da IA. Enquanto as práticas antigas ofereciam apoio ou orientação, as tecnologias contemporâneas pretendem assumir um papel quase prescritivo. Mais que encontrar o par perfeito, elas sugerem, priorizam, moldam interações e até substituem experiências relacionais.

A mediação em si não é um problema, pois ela faz parte da experiência humana. O ponto de inflexão está no grau de dependência e no tipo de expectativa que hoje projetamos nela.

Passamos a esperar que o digital resolva dilemas emocionais complexos com uma suposta eficiência técnica, e isso reconfigura o próprio significado de relacionamento. Começamos a aceitar um amor adaptado às ferramentas.

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Mas não estamos preparados para lidar com essa mudança, por isso enfrentamos uma “epidemia” de relacionamentos rasos e descartáveis. Nesse contexto, considero o filósofo polonês Zygmunt Bauman como um dos maiores pensadores de nosso tempo, pois descreveu esse “amor líquido” ainda em 2003.

Assim como muitas obras de ficção, o filme “Newness” (2017), dirigido por Drake Doremus, expõe esse dilema de uma maneira quase didática. Ele conta a história de Martin (Nicholas Hoult) e Gabi (Laia Costa), dois jovens que usam intensamente esses aplicativos e iniciam uma relação contaminados pelo seu modo de funcionamento. Mesmo juntos, permanece a sensação de que há sempre alguém potencialmente melhor a uma “deslizada de distância”. O roteiro demonstra a dificuldade de se construir intimidade em um ambiente que incentiva a constante comparação, a avaliação rápida e a possibilidade permanente de substituição.

Os protagonistas usavam um aplicativo fictício chamado Winx, claramente inspirado na mecânica do Tinder. O “cardápio de gente” que eles criam era explorado intensamente, com vários relacionamentos sexuais em uma mesma noite, sempre insatisfatórios.

Agora o Tinder quer mudar isso. No dia 12 de março, anunciou mudanças impulsionadas pela inteligência artificial, que prometem uma “curadoria de relacionamentos”.

Ironicamente, isso remete à curadoria social do passado, com a diferença que o “sábio da aldeia” foi substituído por algoritmos estatísticos. O marketing sedutor da IA muda o grau de sofisticação e a promessa de controle, mas as pessoas continuam confiando seu destino amoroso a uma mandinga, agora digital.

Com a tecnologia, chegamos ao ponto em que essa promessa se torna quantitativa, mensurável e escalável. A mediação simbólica ou social dá lugar a um pretensioso cálculo. E aí reside a verdadeira ruptura, pois, pela primeira vez, não estamos apenas tentando “ajudar o amor” a acontecer, e sim tentando modelá-lo como um sistema previsível.

No final, esse é mais um exemplo de que a inteligência artificial, a despeito de todo o seu poder, não é um oráculo. Se há algo que não respeita a estatística é o amor. Usar a IA e prometer resultados nesse campo é tão fajuto quanto as ofertas dos videntes dos cartazes nos postes.


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