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Lisboa doma a bacia do Tejo: megatúneis prometem reduzir em até 80% as cheias

Lisboa doma a bacia do Tejo: megatúneis prometem reduzir em até 80% as cheias

As enchentes nas áreas baixas de Lisboa são um problema histórico, agravado pela urbanização que substituiu áreas naturais por ruas e avenidas e, mais recentemente, pelas mudanças climáticas, que intensificaram os períodos de chuva. Agora, o mesmo Rio Tejo que marca a paisagem da cidade é parte central da solução. Segundo o engenheiro José Silva Ferreira, coordenador do Plano Geral de Drenagem de Lisboa, o projeto pode reduzir em até 80% as cheias nessas regiões.

 Lisboa doma a bacia do Tejo: megatúneis prometem reduzir em até 80% as cheias

Engenheiro José Silva Ferreira, coordenador do Plano Geral de Drenagem de Lisboa Foto: Tiago Queiroz/Estadão Blue Studio

“É uma obra que busca o conceito da renaturalização, muito usado no norte da Europa, além de abrir oportunidades importantes”, afirma o engenheiro, que apresentou o plano em São Paulo, durante o Fórum de Infraestrutura e Políticas Públicas, organizado pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP).

Túneis gigantes sob a cidade

Quem visitou recentemente Lisboa percebeu o transtorno causado pelas obras que, depois de prontas, passarão praticamente despercebidas aos olhos dos visitantes. O coração do projeto são dois grandes túneis de drenagem, que substituem a ideia anterior de múltiplos reservatórios — considerada cara e de difícil implantação numa cidade densamente ocupada. Essa estratégia dos “piscinões” é usada até hoje em São Paulo como solução para cheias.

Na cidade das sete colinas, como é conhecida Lisboa, o principal túnel em execução é o Monsanto–Santa Apolónia, com cerca de 5 km de extensão. O segundo, Chelas–Beato, tem aproximadamente 1 km. Ambos possuem diâmetro interno de 5,5 metros — dimensões comparáveis às de túneis de metrô — e foram escavados a dezenas de metros de profundidade, passando por baixo de edifícios e infraestruturas urbanas. “Em um dos trechos, ficamos a 40 cm do túnel do metrô, o que nos deu muita preocupação na noite da escavação daquele trecho”, lembra Ferreira.

Na prática, trata-se de uma infraestrutura invisível, mas de escala quase metroviária, pensada para resistir a eventos extremos — chuvas com período de retorno de até 100 anos — e com vida útil estimada também em um século. O sistema subterrâneo, capaz de “transferir” grandes volumes de água entre bacias hidrográficas e descarregá-los rapidamente no Tejo, vai além de uma obra de engenharia e combina uma visão transversal sobre o uso da água.

Água que limpa, irriga e protege

Os túneis não vão servir apenas para escoar água. Eles integram um sistema mais amplo que inclui bacias antipoluição — que captam as primeiras águas da chuva, mais contaminadas — e permitem o reaproveitamento hídrico para usos urbanos, como limpeza de ruas e irrigação.

A Avenida da Liberdade, principal via da cidade, e o Parque Eduardo VII poderão ser irrigados com água captada pelo sistema. Já na Praça de Espanha, o projeto prevê a formação de uma espécie de lagoa para reter o volume despejado pelos temporais mais intensos. E, depois disso, essa mesma água vai se infiltrar lentamente nos aquíferos da cidade.

A capital portuguesa terá ainda duas “fábricas de água” — nome moderno para as estações de tratamento —, reforçando o caráter multifuncional do plano.

Todo o funcionamento do sistema está calcado em preceitos hidráulicos: a água da chuva captada em pontos elevados, como Monsanto e Chelas, será conduzida por gravidade ao longo dos túneis, com captações adicionais em áreas críticas, como a Avenida da Liberdade e a Avenida Almirante Reis. Trata-se de um autêntico “desvio hidráulico”, retirando o excesso das zonas mais vulneráveis e encaminhando-o ao Tejo.

A máquina chinesa que perfura Lisboa

Para furar o histórico subsolo lisboeta — e enfrentar também as inevitáveis tensões com arqueólogos, que chegaram a interromper a obra por seis meses para estudar artefatos encontrados —, os portugueses recorreram à tecnologia de ponta.

Veio da China a tuneladora H2Oli, uma máquina projetada especificamente para escavar o subsolo de Lisboa. Com cerca de 130 metros de comprimento, ela avança aproximadamente 10 metros por dia, instalando anéis estruturais que formam as paredes dos túneis.

Ao todo, 2.334 dessas estruturas anelares deverão permanecer por séculos sob o chão da capital portuguesa, sustentando uma das maiores obras de adaptação climática da Europa. Os 520 mil metros cúbicos de solo que serão extraídos percorrem uma esteira única até chegar ao exterior.

Unanimidade e investimento

Todo o projeto, com custo atualizado de cerca de 250 milhões de euros, é de autoria da cidade de Lisboa. O passo político decisivo, segundo Ferreira, foi a aprovação unânime pelos vereadores, que reconheceram o caráter estratégico da obra.

A prefeitura também obteve financiamento da União Europeia, reduzindo o impacto direto sobre o orçamento municipal. A previsão é que o sistema esteja plenamente operacional no início de 2029 — e, com isso, chegue ao fim uma parte relevante dos transtornos causados pelas cheias. E pelas obras.

E as águas que chegarão mais rapidamente ao Tejo? “Fizemos uma espécie de bico de pato no fim dos túneis, com cerca de 200 metros, para que o volume máximo, quando chegue ao rio, não incomode em nada a navegação”, diz Ferreira.

Se as naus que navegavam pelo rio — “mais belo que o rio que corre pela minha aldeia”, na imagem imortalizada por Fernando Pessoa — simbolizavam a expansão marítima, hoje o Tejo convive com grandes transatlânticos e seus impactos ambientais. Entre passado e futuro, Lisboa aposta agora na engenharia para domar as águas que sempre moldaram sua história.

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