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O Êxodo é Findo! – Estadão

O Êxodo é Findo! – Estadão

O Êxodo é Findo. 

A Verdade é Insuficiente, a liberdade não!

Passaram muitos anos desde que todas as utopias desapareceram.Ficamos sós. Num universo trincado pelas longas promessas inacabadas. Um mundo de pedaços apartados que migram sem encaixe. Orbitam erráticos.

Daqui em diante, só os gestos mínimos contam. Eles romperão as estacas que tiranizavam o caminho. A vida percorreu muitas etapas antes de te dizer de forma uníssona: chega.

Não étriste, apenas que, hoje, aqui,de dentro desta jornada através da estação da melancolia, aprendemos a recusá-la. Tua fala, um meio tom abaixo do que já foi, não mais encontra locutor.

As mãos só alcançam o pódio da desonra. Heróis sem dignidade e racistas que não mais escondem suas escolhas. Teus olhos ainda conseguem durar entreabertos, e nem consigo mais deter o ócio que me fez jorrar sobre ti todos os esforços do mundo?

Podemos implorar?Podemos, entretanto, recusaremos.

Internas teu coração no meu e verás o que enxergo. Dentro e fora de ti. Ninguém previu isso. A verdade é insuficiente para terminar histórias. A liberdade não. A verdade tergiversa, a liberdade é unívoca, plena, insubstituível.

Os escravos não mais serão. Nem de ti, nem dos teus. O pertencimento agora é nosso. É nosso o lugar. É aqui que ficaremos. Israel permanecerá intocável pela injustificável. cobiçaA convicção de que toleramos demais nos tomou e ficamos com a coragem dos que sabem o valor da luta.

A história nos conta o que ninguém mais quer ouvir.Mesmo assim, incorporamos o desejo, e é ele que colocou a avidez em curso. E sem pudor, desfazer minha concentração férrea em tua face. Hoje o mundo não encontra descanso. Não, não são somente as guerras, nem os estilhaços de letras jogadas, mas os livros órfãos. As páginas avulsas pisoteadas. O abandono das considerações.Aqueles múltiplos de frases e ideias que os escritos geravam.

E ainda assim nos gerou uma hagadá de livre passagem. Entre escombros, vaias e assombrações cruzamos o vale, não sucumbimos aos desertos de homens, e usamos a ponte da natureza para cruzar o mar em seco.

Eu pude te encontrar em sonho, e, mesmo assim, sem as estradas que me guiavam até a entrada, rumamos até o sol da tua benévola boca. Fui, desatento, fluir através dos atalhos dos escritos. Das pedras grafadas com leis. Transportamos as migalhas de uma ancestralidade que visa estender a memória como uma forma de vida. E assim existimos.

E, não se espantem, a pesquisa pertence ao singular. Daqueles que podem admirar sem que a perplexidade os ofusque. Quando cada geração atravessa um mar de calamidades é o sujeito, só, único, que merece olhar o que foi percorrido.

Mirei a vastidão e prosseguimos, insistimos em explorar os percursos que nem sabíamos existir. E a sede coletiva terminou quando toquei na água que flutuava ao teu redor. O calor, aquele que fixava as mãos. Os territórios futuros que pensamos juntos, afinal, solúveis em areia.

Espaços imprevisíveis entrevistos nas planícies inexploradas. Vastas terras não desoladas. Eu te quis tanto, e por tanto tempo, que agora não posso mais respirar, o ar, que rarefeito, é a única prova que só posso colapsar em você. Por você. Minha anulação, eu sei, não prova nada.

Posso, porém, atestar: minha cama embala a tua, assim nossos pés, discretos, sabem como submergir. Não ousem misturar o amor com compreensão. Todo homem carrega uma Jerusalém. A transcendência é uma promessa, mas vive e respira na convicção da esperança. Precária, oscilante, irresoluta, mas tremula na respiração.

Seu eixo é, está, precisamente, na incongruência. A incerteza que torna o segundo seguinte imprevisível. O futuro que nunca chegará porque alcançou o presente, e não é mais passado.

Ninguém mais sabe a fórmula de tudo que concluímos sozinhos. Não era a química que ordenava a sequência de nossas moléculas. Eram as tábuas e as letras misturadas ao empenho da nossa vida comum, ancestral. Era a ressurreição em notas musicais que vibram entre nós. Como as células, como as façanhas do DNA.Em espelhos empilhados como cones. E foi assim que te encontrei, histórica, sob o formidável silencio que só se pronuncia sem pressão nenhuma.

A verdade é insuficiente, porque ninguém pode rastrear nossa insônia. Ela embebe de distância a nossa esperança. Desce as escadas apressada como uma flecha descompassada, e recém atravessada em peitos recém-abertos.

Meu coração pode enfim descer, recolher fragmentos, isso, até que decifres o que viemos oferecer. A verdade é insuficiente porque os homens sacrificaram o fundo para ficar com a forma.

Esvaziaram a luz com o artificio do pavio fugaz. E tua forma vive para afirmar que há um sempre que ninguém captura. O inapreensível que delira entre as balanças, enquanto o sangue desliza em direção aos vasos comunicantes. Nenhuma solidão ficará restrita aos que contemplam, nenhuma lei perdurará enquanto a atração entre nós e o pacto vigorar.

E o nosso semblante poderia, enfim, deitar-se, sem a espuma que nos cercava. Foi assim que a música reapareceu depois de silenciada. A verdade é insuficiente, porque contemplar teu reino basta. E teu reino é aquele no qual os homens poderiam encampar uma novíssima lida, de vida de campo e cidade, aquela temporada na qual a verdade flui sob liberdade. Aos homens de todas as vontades.

Tempo esgotado: não pediremos mais, não imploraremos.

O êxodo é findo. 

Tu me perguntas, com propriedade, mas e a paz?

A paz que faz sentido só se imporá como uma extensão da liberdade. E ela virá, em nossos dias, ou em dias alheios.

Chag sameach. Bom pessach e boa páscoa

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