Depois do boliche, o xadrez: o 1º ano do papa Leão XIV e o que esperar da Igreja Católica no Brasil
“O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos”, diz papa após críticas de Trump
O discurso surgiu após nova provocação do presidente Donald Trump na madrugada desta quarta-feira, 15. Crédito: AFP
Quando o norte-americano Robert Francis Prevost apareceu na sacada da Basílica de São Pedro e foi anunciado como Leão XIV, o novo papa da Igreja Católica, exatamente um ano atrás, muitos ficaram surpresos. Mas, se seu nome não era dos que costumavam ser listados no rol das principais apostas para suceder o argentino Jorge Mario Bergoglio (1936-2025), papa Francisco, quem acompanha de perto a política da alta cúpula da Santa Sé já sabia da importância que aquele bispo nascido em Chicago, que havia construído carreira no Peru e rodado o mundo como líder da ordem dos agostinianos, ganhara durante os últimos anos do pontificado anterior.
Prevost, afinal, desde janeiro de 2023 era o prefeito do poderoso Dicastério para os Bispos — órgão na estrutura do Vaticano que coordena os 5,6 mil bispos da instituição, capilarizados em todo o planeta.
De 8 de maio de 2025 para cá, se por um lado o norte-americano parece cada vez mais confortável no cargo, por outro as inevitáveis comparações com o anterior ressaltam uma personalidade mais contida, discreta, afeita aos protocolos — consequentemente menos midiática.
Leão XIV acena para os fiéis na Praça São Pedro, no Vaticano. Foto: ANDREAS SOLARO/AFP
O sacerdote jesuíta James Martin, feito consultor do Vaticano por Francisco em 2017, editor geral da revista jesuíta America Media e autor de, entre outros livros, My Life with the Saints, conta que, logo após o conclave, conversou com um padre agostiniano próximo a Prevost, perguntando como ele era.
“Ele disse: é gentil, atencioso, espiritual, ponderado e um bom ouvinte. Todos gostam dele. Mas não é alguém fácil de pressionar. É muito firme quando precisa ser firme”, revela. “Acho que estamos vendo isso agora. Uma pessoa calma, inteligente, mas firme.”
“Acredito que ele está indo muito bem”, acrescenta Martin.
“É muito cedo para darmos definições”, comenta o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor do Lay Centre, também em Roma. “Mas ele atua de forma mais lenta. Gosta de jogar xadrez, enquanto o papa Francisco jogava boliche.”
O professor recorda que, enquanto o argentino havia sido eleito com a missão de reformar, e chegou “já sacudindo as estruturas” em um momento de profunda crise institucional na Igreja, Leão XIV entrou com a “casa, se não arrumada, com as coisas já no lugar”.
“Ele chegou com um cenário muito melhor do que o anterior”, analisa Domingues. “Agora começa a botar as peças no lugar, depois que o Francisco espalhou o quebra-cabeça.”
Troca de arcebispos no Brasil
No cenário brasileiro, o movimento de maior impacto ocorrido neste início de pontificado foi a troca do chefe da Arquidiocese de Aparecida, o mais importante centro de peregrinação católica do País. No último fim de semana, assumiu o comando o arcebispo Mário Antonio da Silva, de 59 anos, sucedendo Orlando Brandes, 80 anos, que se aposentou da função após quase uma década de serviços prestados ali.
“É uma diocese muito pequena, mas muito simbólica por conta do santuário”, afirma Domingues. São apenas 19 paróquias, é verdade. Mas uma enormidade de romeiros — no ano passado, o complexo católico recebeu 10,5 milhões de pessoas.
Nomeados pelo papa Leão XIV, os novos bispos auxiliares da Arquidiocese de São Paulo, dom Márcio Antonio Vidal de Negreiros e dom Celso Alexandre durante celebração presidida pelo cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano. Foto: Lucinei Martins/O São Paulo
Domingues ainda lembra que se trata de uma posição delicada sobretudo em anos eleitorais, como este. Durante campanhas, é comum que candidatos sejam vistos em missas na basílica. Além disso, a mídia costuma dar mais visibilidade a eventuais declarações de cunho político e social feitas pelo arcebispo durante celebrações. “Tem de ser alguém que saiba medir as palavras e consiga manter boas relações com todo mundo”, avalia Domingues.
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Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes comenta que a trajetória de Silva é um indicativo do perfil que Leão busca para postos importantes na Igreja. Paulista de Itararé, o religioso foi bispo auxiliar em Manaus, bispo em Roraima e arcebispo de Cuiabá antes de assumir Aparecida.
“Percebe-se uma atuação muito pastoral, com a ideia de viver com o povo. Quando esteve em Roraima, por exemplo, ele foi uma voz importante no apoio aos imigrantes venezuelanos”, comenta. “Também ergueu-se em defesa das causas indígenas. É um homem com o coração nas questões sociais.”
Por coincidência — o Código de Direito Canônico estabelece que um bispo, quando está prestes a completar 75 anos, precisa apresentar um pedido de renúncia ao papa —, Leão XIV tem à sua frente nos próximos meses o desafio de nomear os novos líderes de outras três arquidioceses brasileiras importantes.
Os chefes das duas mais populosas circunscrições católicas do País, as arquidioceses de São Paulo e do Rio, e da simbólica Manaus, coração da Amazônia, estão em vias de se aposentar. O arcebispo Odilo Scherer deve encerrar sua gestão na maior arquidiocese brasileira, a de São Paulo, no fim deste ano — ele está no cargo desde 2007 e completou 75 anos em setembro de 2024.
Arcebispo do Rio desde 2008, Orani Tempesta chegou à idade-limite em junho do ano passado. Ele deve ficar no cargo até meados do ano que vem. Conhecido como o primeiro cardeal da Amazônia, Leonardo Steiner fez 75 anos em novembro e, por isso, em breve deve ser substituído em Manaus.
Para Moraes, até agora a atenção ao cuidado pastoral é o que une os bispos já nomeados por Leão XIV. Ele acredita que esta deve ser a preocupação do papa, com a experiência de quem comandou o Dicastério para os Bispos e, portanto, conhece bem o rebanho.
O teólogo cita essa característica-chave nos casos das nomeações do bispo Manoel de Oliveira Soares Filho, que assume a diocese de Castanhal, no Pará, em junho; Jefferson Santos Pinheiro, nomeado bispo auxiliar de Aracaju, capital do Sergipe, em março; e os dois religiosos designados como bispos auxiliares de São Paulo no fim do ano passado, Márcio Antonio Vidal de Negreiros e Celso Alexandre.
“São bispos práticos, não midiáticos. Gente focada em cuidar de gente, não em ficar arrastando multidões”, pontua Moraes.
Personalidade
Evidentemente que Leão XIV tem sua personalidade própria — nenhum pontífice é clone do anterior. “Ele segue mais o protocolo”, diz Domingues. “E o protocolo existe para dar segurança, previsibilidade. Isso o protege como figura pública. Assim, ele pode focar em outras coisas, para ele mais importantes, questões estruturais.”
Domingues acredita que isso ficou claro na recente viagem empreendida por ele para países africanos — em abril ele visitou Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
O vaticanista vê em Leão alguém com “personalidade contida, talvez pelo fato de ser norte-americano”. “Não é pouco carismático. Tem um carisma diferente.”
Domingues vê em Leão alguém que transmite mais aquilo que “o papa representa” do que ele como pessoa. Do grupo ACI-EWTN de notícias católicas globais, o vaticanista Andrea Gagliarducci concorda. “Leão XIV não concentra a atenção em si mesmo; ele coloca, antes de tudo, a instituição”, afirma. Seu ponto de partida nas manifestações públicas acaba sendo, portanto, distinto do de Francisco. “Ele próprio é discreto e está acostumado a dar um passo atrás em relação à instituição que serve. A diferença está na personalidade”, analisa.
Padre Martin ressalta que, a despeito dessa imagem de mais discreto, Leão “utiliza a mídia com bastante frequência”. O sacerdote enfatiza o costume do atual papa de conversar com jornalistas de forma meio improvisada, às terças, quando está saindo do palácio de descanso de Castel Gandolfo, a 25 quilômetros de Roma.
Gagliarducci lembra ainda que Leão XIV é o primeiro papa da história que foi ordenado padre depois do Concílio Vaticano 2º — ocorrido de 1962 a 1965 com a missão de reformar e modernizar a Igreja. “É um papa de nova geração. E isso também muda a abordagem dos problemas.”
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Pontos altos
Leão XIV é visto como um papa contido, discreto e afeito aos protocolos do cargo. Foto: Divulgação/VaticanNews
“Ele vai dar declarações fortes quando achar que precisa, como foi o caso agora com o Trump”, comenta Domingues. O episódio, no contexto da guerra provocada pelos Estados Unidos contra o Irã, ficou marcado por trocas de farpas públicas entre os dois norte-americanos mais poderosos do planeta — o papa e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“O Trump meio que vestiu a carapuça e isso chamou a atenção para o que o papa estava fazendo na viagem à África. Em dado momento, ele falou: não quero debater com o presidente, quero voltar a falar sobre o que estamos fazendo aqui”, recorda Domingues. Foi um xeque-mate do enxadrista, que conseguiu trazer os holofotes para o lado que lhe interessa do tabuleiro. Estratégico.
Martin elege a viagem missionária à África como o ponto alto desse início de pontificado, recordando que ali Leão demonstrou “sua calma, sua energia e seu zelo pela evangelização”.
O vaticanista Gagliarducci destaca três momentos fundamentais do pontificado até agora. O primeiro foi quando ele recebeu o anel do pescador — símbolo do ministério — no início de seu papado. Ele fez uma pausa para observá-lo. “Foi o momento em que tomou a consciência de sua responsabilidade, e a assumiu”, interpreta.
O segundo episódio foi a oração realizada em novembro com o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, em Niceia, recordando o 1.700º aniversário do primeiro concílio ecumênico. “Por fim, a visita à prisão de Bata, na Guiné Equatorial”, ressalta. “Lá, os detentos, sob chuva, cantaram para ele.”
Para Gagliarducci, esses três momentos foram ocasiões em que “gestos e palavras se uniram”.
O vaticanista Domingues também vê como momentos altos deste primeiro ano as ocasiões em que o papa teve encontros com jovens. “São momentos em que ele aparece em um tom mais relaxado, solta-se mais. São encontros mais informais, naturalmente, e ele se sente mais livre para se aproximar, brincar, inovar”, salienta.
Martin diz que após o conclave, vários cardeais disseram a ele “que estavam elegendo alguém com coração missionário”. Nesse sentido, não há como não situar o papa dentro do contexto de sua atuação na América do Sul — mas isso não limita seu espectro.
“Não se trata apenas de alguém que compreende muito bem o Peru, a América do Sul e a América Latina, mas de alguém próximo dos pobres. Seu primeiro ano, é claro, foi marcado por muitas declarações e gestos voltados aos pobres, especialmente durante sua peregrinação à África. Assim, acho que precisamos vê-lo sob essa perspectiva: um missionário próximo dos pobres”, diz o religioso Martin.
“Não é possível compreender Leão XIV sem considerar sua experiência como missionário na América Latina. Seus discursos durante a viagem à África, a denúncia da exploração dos pobres são, na minha opinião, clamores que derivam muito da sua experiência entre os mais pobres dos pobres no Peru”, diz Gagliarducci. “Agora aguardamos uma viagem à América Latina, provavelmente no fim do ano, na qual o olhar do papa para a América Latina se tornará ainda mais evidente.”
Ainda não há confirmação oficial, mas fala-se em uma viagem de Leão que inclua Peru, Uruguai e Argentina.



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