×

Anotações acerca da onisciência das mães!

Anotações acerca da onisciência das mães!

Anotações acerca da onisciência das mães!

Sempre houve na tradição popular, na literatura, e na cultura uma mitificação sobre o papel da intuição que as mães têm acerca de seus filhos.

Alguns já chamaram de intuição, sexto sentido, percepção extrassensorial, e há até aqueles que argumentam, como era o caso do Professor Walter E. Maffei que “se a mãe não faz o diagnóstico ninguém mais faz.”

Faz todo o sentido.

Tudo muito interessante e todos sabemos o papel metafórico e transcendente das mães judias, italianas e provavelmente das mães mineiras, e todas as mães brasileiras como um todo, mas e se houver algum substrato biológico que comprovasse que as mães podem ter uma espécie de sensor ou radar, que as informa on line, em tempo real, acerca do estado de suas proles?

Parece que essa hipótese ganhou um novo aliado. Trata-se do que se convencionou chamar de microquimerismo fetal. Recentes descobertas e pesquisas científicas apontam para a presença de células tronco (ou totipotentes) fetais dentro do organismo das mães. Elas podem viver por anos ou décadas.

O mais surpreendente é que há uma nova compreensão acerca do papel dessas células no interior das mães. Por exemplo, em caso de necessidade, podem ajudar a impulsionar favoravelmente o sistema imune das mães. Ou seja, um fragmento dos filhos que habitam mães, pode ser convocado à mobilização como reparo de lesões, feridas, distúrbios cardíacos e alguns estudos sugerem que pode haver um rico menor à propensão à neoplasia mamária.

Essas células já chegaram a ser identificadas e localizadas nas mães 27 anos após o parto. Estão na pele, medula óssea, fígado, coração e cérebro. Os mesmos estudos também apontaram para alguns riscos em função dessa mesma permanência de material celular “estranho” que sensibiliza o organismo da mãe:algumas dessas células também poderiam representar certos riscos, como, por exemplo, ser gatilhos para algumas patologias autoimunes.

Para além de um fenômeno meramente biológico, essa constatação representa um fenômeno extraordinário do ponto de vista simbólico. Já que elas comportam uma parte de seus filhos seria possível que houvesse algum grau de percepção do organismo materno que está além da consciência ordinária? Um inconsciente compartilhado?

Pois como explicar o olho clínico das mães? Os presságios? As compreensões quase epifânicas que sintetizam impressões e deduções com poucos indícios: a partir da leitura da expressão dos olhos, uma torcida de nariz, um gesto, uma entonação de voz. Quais especulações extraordinárias podem ser feitas com as intuições que as mães afirmam ter em relação aos seus filhos? Sentem que estão bem. Ou em perigo. Ou que algum evento se passou com eles, mesmo que estejam distantes centenas, milhares de quilômetros, às vezes em outros continentes. Haveria alguma correlação entre estes fenômenos? Algum grau de onisciência das mães pode ser justificado através da presença de tais células residuais?

O reducionismo cientificista tentaria enquadrar todas essas considerações, e provavelmente banalizá-las. Uma mãe sabe que isso não anula o que ela costuma antever — para além da racionalidade — em suas crias. Estamos diante de um processo xamânico à revelia nas mães que faculta-as receber e transmitir informações?

Ondas de rádio a partir das frequências emitidas pelas organelas citoplasmáticas? Seria a polêmica parafísica descrita pelo físico Mário Schemberg? Ou apenas um fenômeno ignoto, que apesar da nossa extensa (sic) compreensão dos 2% das funções cerebrais, ainda permanece obscuro para todos nós?

Ou seria uma apreciação precipitada afirmar que existe uma relação entre tais descobertas e a capacidade das mães de prever o estado de suas crianças? A ciência tem uma fração empírica – que alguns teimam em negar – mas sempre é forçada a compreender que tem diante de si uma pauta que oferece mais perguntas do que respostas.

Como o médico medieval Paracelso escreveu, é provável que “um dia todas as causas que reputamos sobrenaturais tenham uma explicação natural”.

 

Pode ser.

Mas talvez seja preferível aceitar que alguns fenômenos estão longe de elucidação, e que as mães tenham um poder que, pelo menos por hora, está para bem além das explicações científicas.

Talvez seja bom admitir que um enigma persistente está em vigor, e que é domínio exclusivo do gênero feminino: somente as mulheres o detém.

O mistério é, provavelmente, um dos motores da curiosidade filosófica e científica, e, portanto, pode nos impulsionar em direção ao desejo de compreensão. Mesmo assim as mães pairam num campo particularmente desconcertante pois são a elas que se costuma recorrer nas grandes crises, nas angústias familiares, e, principalmente, como pessoas que ancoram as navegações turbulentas pelas quais inevitavelmente todas as famílias atravessam em algum momento.

Creio que poucas mães cerrariam hoje fileiras com a frase “ser mãe é padecer no paraíso”: sobrecarga, jornadas duplas e triplas não são exceção, e falta de apoio viraram regras. E sem entrar no mérito do papel dos pais, são as mães, com ou sem as células dos seus bebês, que centralizam os eventos familiares e tecem o elã que faz com que as pessoas se reúnam.

Há algo de heroico nas mães que as faz ocupar um lugar insubstituível na ordenação do mundo, e é por essa coragem que são cultuadas. E, justificadamente, temidas.

Afinal, qual outra autoridade merece o respeito que lhes devotamos?

_________________________________________

Leia também:

Share this content:

Publicar comentário