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A permanência judaica, hoje. Por Lilia Frankenthal*

A permanência judaica, hoje. Por Lilia Frankenthal*

A permanência judaica, hoje.

Por Lilia Frankenthal*

 A permanência judaica, hoje. Por Lilia Frankenthal*

 

Ser judeu hoje é pertencer a uma história que atravessou séculos, pulsa no presente e se projeta ao futuro. Significa carregar uma memória ancestral feita de estudo, palavra, exílio, retorno e continuidade.

É compreender que a identidade judaica atravessou impérios, expulsões, guetos, inquisições e pogroms — e, ainda assim, chegou ao presente de pé, criadora, inteira.

Viva.

Há territórios que são mais do que fronteiras. Representam a gramática profunda de um povo. A Polônia, apagada do mapa por 123 anos, jamais foi apagada da identidade polonesa. A Grécia, submetida por séculos ao domínio otomano, jamais deixou de ser a referência civilizacional dos gregos. Do mesmo modo, Israel não é apenas um Estado contemporâneo, nem se confunde com este ou aquele governo.

Israel é simultaneamente memória, língua, oração, história, e, sobretudo, continuidade.

É parte constitutiva da experiência judaica no mundo. Para muitos judeus, Israel habita a memória coletiva como lembrança, promessa, idioma, liturgia e destino histórico. Está nas preces voltadas a Jerusalém, — cujo dia é hoje — nas festas, nos livros, nas canções, nos nomes, no hebraico que sobreviveu ao tempo, na dor dos exílios e na esperança do retorno.

Governos passam. Coalizões passam. Lideranças passam. Povos permanecem.

E o povo judeu é uma permanência. Permanece no estudo, na liturgia, na mesa familiar, no luto e na festa. Permanece na pergunta — essa forma judaica de resistência. Permanece na capacidade quase teimosa de reconstruir vida onde tentaram produzir ruína.

Por isso, Israel não é detalhe externo à identidade judaica, mas uma de suas expressões históricas mais profundas. Como toda grande ideia histórica, o sionismo também foi objeto de debate dentro do próprio mundo judaico. Havia contrapontos, dúvidas e projetos distintos. Com a criação do Estado de Israel em 1948, — vale dizer recriação, uma vez que os judeus nunca cessaram de habitar aquele território -, seu objetivo central deixou de ser uma hipótese para tornou-se um fato histórico irreversível: um lar nacional judeu soberano.

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A partir daí, Israel passou a integrar a realidade concreta do povo judeu no mundo — não como governo eterno, nem sob uma unanimidade artificial, mas como uma casa histórica reencontrada.

Judeus são e sempre foram plurais. Em cada país que os recebeu, trouxeram sua tradição, sua disciplina de estudo, sua obsessiva ética de questionamentos, a reverência pela lei, a memória de exílio e sua vocação para fazer contribuições às terras que os acolhem.Ao mesmo tempo, sempre respeitaram o lugar que os hospeda. Foi assim no Brasil e em tantas outras nações. O judeu leva consigo sua história, mas jamais vira às costas para a terra onde mora. Cria novas raízes, sem abandonar as antigas.

A comunidade judaica não se resume a governos ou partidos. Existe antes e além deles. É feita de indivíduos, famílias, escolas, sinagogas, instituições, sobreviventes, professores, escritores, cientistas, artistas, advogados, médicos, religiosos e laicos. Não é bloco uniforme; é povo. E povos pensam, divergem, debatem e continuam. Também por isso, sua representatividade deve ser a voz da pluralidade.

Representar uma comunidade milenar é ouvir, servir e proteger a dignidade coletiva. A tradição judaica nunca cultuou o homem providencial. Cultuou a palavra, a lei, o estudo, a transmissão e a responsabilidade comum. Onde quer que aportem, os judeus levam uma biblioteca invisível: estudo, disciplina memória do exílio e urgência da justiça. Induzem descobertas, métodos, livros, debates, humor, ciência, filantropia, e, sobretudo, inconformismo. Não há arrogância, mas fidelidade à tradição que ensina que sobreviver não basta: é preciso oferecer ajuda e contribuições.

Há décadas, a comunidade judaica encontrou uma casa no Brasil. E aqui vive, participa e pertence — a despeito de governos e conjunturas. Como tantas outras comunidades que ajudaram a construir o país, com trabalho, solidariedade e presença.

O orgulho de ser judeu hoje nasce da herança, da contribuição, da memória e da continuidade. Nasce de saber que somos uma comunidade ancestral e cheia de vitalidade. Temos memória, voz e raízes. E Israel faz parte de cada judeu, de nossa história; o Brasil, de nossa vida.

E seguimos, assim, fazendo parte do todo e existindo por inteiro.

*Lilia Frankenthal, advogada, presidente e fundadora da Associação AVIVA18 que combate o antissemitismo.

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