Mercado abandona o deslumbramento e começa a cobrar resultado da IA
Christian Klein (esquerda) e Roger Federer, na palestra de encerramento do SAP Sapphire 2026, que aconteceu em Orlando – Foto: Paulo Silvestre
Depois de três anos de histeria em torno da inteligência artificial generativa, o mercado começa a amadurecer no uso corporativo da tecnologia. O deslumbramento com demonstrações impressionantes e promessas futuristas começa a dar espaço para uma discussão mais pragmática sobre contexto empresarial, qualidade de dados, governança e execução operacional. Entram em cena cobranças por produtividade mensurável e redução de custos em processos de missão crítica.
Essa percepção deu o tom ao Sapphire 2026, principal evento da SAP, realizado em Orlando (EUA), nos dias 12 e 13 de maio. A gigante alemã de software tenta se posicionar nessa nova fase como uma companhia de IA sustentada por décadas de experiência em software empresarial. A tese defendida no evento é que uma IA sem contexto corporativo produz respostas rápidas, mas não necessariamente confiáveis.
No centro dessa ambição, está a ideia de “empresa autônoma”. Em vez de automação de tarefas isoladas, a SAP descreve organizações em que agentes de IA executam cadeias inteiras de processos, integrando todas as áreas do negócio. E isso acontece sempre sob supervisão humana, mas com muito menos intervenção manual.
Para isso, a empresa insiste que o diferencial está menos nos modelos de IA e mais nos dados que os alimentam. Aí reside um problema conhecido, especialmente no Brasil, país com histórico de baixa disciplina na coleta, manutenção e consistência de dados, com sistemas legados, bases duplicadas, informações em silos e pouca governança, o que transforma uma IA sofisticada em um castelo de areia.
É inevitável pensar quanto dessa visão é um horizonte plausível, ainda que distante, e quanto permanece como ideal de marketing. Afinal, criar pilotos de IA ficou relativamente simples, mas transformar essas experiências em operações confiáveis, escaláveis e financeiramente sustentáveis ainda não é trivial.
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O CEO da SAP, Christian Klein, reconheceu essa dificuldade citando que a adoção da IA avançou mais rápido do que qualquer tecnologia anterior. Mas acrescentou que as empresas precisam ir além da exploração superficial, transformando a IA em resultados concretos de negócio, com mudança cultural, redesenho de processos e treinamento de pessoas. “No final das contas, nunca se esqueça de que a gestão de mudanças é muito importante”, explicou.
Adriana Aroulho, presidente da SAP na América Latina, reforçou que as empresas ainda estão longe de se tornarem realmente autônomas, e que a IA não pode se transformar em desculpa para terceirizar decisões que exigem responsabilidade humana. “As decisões importantes estão no ser humano, nas pessoas”, disse. Para ela, a tecnologia nunca deve tomar decisões críticas de negócio, com grande impacto social ou regulatório, sem que um gestor entenda o que há por trás da recomendação.
Ainda não existem empresas plenamente autônomas, e os próprios executivos da SAP reconhecem que esse é mais um norte do que uma descrição do presente. As organizações estão automatizando fragmentos de operação, mas falta integração de dados, governança, cultura organizacional e capacidade de coordenação entre sistemas distintos. A tecnologia avança exponencialmente, mas as empresas evoluem em ritmo mais lento em áreas fundamentais como liderança e organização interna.
Ainda assim, o mercado começa a perceber essa mudança de prioridade, saindo do discurso de “não quero ficar para trás” para o de “quero resultado”. “O que eu mais vejo hoje são empresas que fazem pilotos de IA que funcionam, mas, na hora de escalar para toda empresa, faltam dados”, alertou Rui Botelho, presidente da SAP Brasil.
A SAP reconhece que não conseguirá construir tudo sozinha. Por isso anunciou um fundo de 100 milhões de euros para parceiros desenvolverem agentes em sua plataforma e reforçou alianças com empresas de modelos de linguagem, consultorias e integradores. A disputa deixa de ser apenas “ter IA” e passa a ser “controlar a infraestrutura invisível” na qual os agentes corporativos irão operar.
A importância da liderança humana
Um dos aspectos mais interessantes do Sapphire foi o esforço consciente da SAP em reforçar que humanos continuam responsáveis pelas decisões estratégicas. Quanto mais o evento falava sobre autonomia, mais surgiam temas como supervisão crítica, contexto de risco, responsabilidade jurídica e julgamento humano.
Ao mesmo tempo, a IA começa a se transformar em uma espécie de “interface universal” para o software corporativo. O trabalho deixa gradualmente de ser navegar por menus complexos do ERP e passa a ser formular boas perguntas, desenhar agentes e supervisionar fluxos automatizados. Isso reconfigura profissões inteiras, mas não elimina a necessidade humana.
Os impactos sobre o trabalho já aparecem, inclusive com grandes ondas de demissões em vários setores do mercado. Brenda Brown, CMO de inteligência artificial da SAP, reconhece a mudança de natureza dos empregos e afirma que qualquer profissional, de qualquer área, precisa aprender a aplicar IA no que faz para continuar relevante. “A IA não vai te substituir, mas alguém que a usa fará isso”, explicou.
Existe um aparente paradoxo nessas transformações maiúsculas e aceleradas promovidas pela IA, e ele apareceu no Sapphire. Quanto mais se falou no evento sobre agentes autônomos e automação empresarial, mais emergiram temas profundamente humanos, como medo, cultura organizacional, liderança, responsabilidade, formação profissional, manutenção de empregos e ética.
A tecnologia pode estar realmente deixando de ser apenas uma vitrine de inovação para se tornar parte crítica da estrutura operacional das empresas. Se for isso, trata-se de uma maturação necessária e inevitável, com a qual estamos aprendendo a lidar.
Isso também ficou evidente na palestra de encerramento do evento, quando o multicampeão do tênis Roger Federer subiu ao palco para falar sobre disciplina, derrotas, pressão, equipe e família. Em um evento dominado por IA, um dos momentos mais fortes veio justamente de uma reflexão profundamente humana.
Assim, antes de sonhar com organizações operando no piloto automático, empresas e sociedades precisam enfrentar seus próprios gargalos de organização, liderança e prioridade, sob o risco de construírem sistemas cada vez mais inteligentes em cima de decisões cada vez menos sábias, o que não interessa a ninguém.



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