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O desafio de envelhecer em um País onde a sociedade e o Estado ainda negam a velhice

O desafio de envelhecer em um País onde a sociedade e o Estado ainda negam a velhice

Estado deve criar mais estruturas para idosos, diz Gonzalo Vecina

Para o sanitarista, o envelhecimento da população deve ensejar novos tipos de políticas públicas. Crédito: Estadão

A busca pela longevidade nunca esteve tão em alta: virou objeto de desejo e, em alguns casos, quase uma obsessão. Promessas de dietas, terapias e rotinas capazes de prolongar a vida e disfarçar os sinais do tempo viralizam nas redes sociais e vendem milhares de livros. Paradoxalmente, poucos querem reconhecer que fazem parte desse destino: “No Brasil, o velho é sempre o outro”.

A frase, do médico gerontólogo Alexandre Kalache, resume um dos grandes entraves para que o País enfrente os desafios do envelhecimento populacional: embora seja uma transformação já em curso, acelerada e previsível, ainda é tratada como assunto alheio, distante ou restrito às famílias.

O etarismo não aparece apenas em piadas ou na recusa individual de se reconhecer como velho. Ele também se manifesta na forma como políticas públicas são priorizadas. A velhice costuma entrar no debate público pelo custo da Previdência, pela lotação de hospitais ou pela dependência, raramente pela autonomia, inclusão ou direito ao cuidado. Se o velho é sempre o outro, a política para o envelhecimento também fica sempre para depois.

Além disso, políticas de prevenção e promoção da saúde, tão importantes no contexto do envelhecimento, como destacado por especialistas no evento Brasil Adiante, não têm forte apelo eleitoral: não rendem placa nem “foto de inauguração”. Quando funcionam, muitas vezes caem no esquecimento. São vítimas do próprio sucesso: evitam internações, incapacidades e mortes que não serão vistas.

O problema é que políticas de envelhecimento saudável exigem exatamente esse tipo de investimento de retorno de médio ou longo prazo. O benefício de controlar hipertensão, ampliar atividade física ou reduzir o tabagismo costuma aparecer anos depois, frequentemente fora do mandato de quem decidiu investir.

 O desafio de envelhecer em um País onde a sociedade e o Estado ainda negam a velhice

País vive envelhecimento populacional acelerado: 15% dos brasileiros têm 60 anos ou mais. Foto: Felipe Rau/Estadão

Para além da questão política, qualquer intenção de ampliar a atenção aos idosos também vai esbarrar no orçamento insuficiente da saúde. O SUS é uma das maiores conquistas sociais brasileiras, mas o caráter universal do sistema convive com o subfinanciamento crônico.

Dados da OCDE mostram que, em 2022, o Brasil gastava cerca de US$ 1,7 mil por habitante em saúde, menos de um terço da média dos países da organização (em paridade de poder de compra). Só 45% desse valor era de investimento público. No Reino Unido, outro país com sistema universal, o gasto total per capita em 2024 foi de US$ 6,7 mil, dos quais 82% cobertos por financiamento obrigatório ou público.

Outro entrave a ser vencido é a fragmentação entre saúde e assistência social. O envelhecimento não traz apenas maior demanda por atendimento médico. Ele exige cuidado continuado, apoio ao cuidador e serviços capazes de manter a pessoa com autonomia pelo maior tempo possível. No Brasil Adiante, essa integração apareceu como uma das propostas centrais: a saúde não dará conta sozinha de uma população mais velha.

Experiências internacionais apontam caminhos. Na Holanda, o modelo Buurtzorg reorganizou a assistência domiciliar com equipes pequenas de enfermagem articuladas com médicos, terapeutas, famílias e redes locais. Outros países também criaram modelos de apoio financeiro a familiares cuidadores, reconhecendo que cuidar de uma pessoa dependente não é problema individual e tem impacto direto sobre a renda ao tirar do mercado quem precisa se dedicar integralmente ao cuidado de um parente.

Envelhecer é uma conquista civilizatória. É resultado de vacinação, saneamento, avanço científico, acesso a serviços de saúde e melhora das condições de vida. Mas, quando uma sociedade envelhece antes de reduzir desigualdades e sem organizar políticas de cuidado, essa conquista passa a ser vista como ameaça fiscal, sobrecarga familiar e pressão sobre hospitais.

Nos debates sobre infância, é comum recorrer ao provérbio africano que diz que é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança. A frase lembra que o cuidado e a formação de um novo cidadão não acontecem apenas dentro de casa: dependem de escola, saúde, renda, comunidade, investimento público e políticas de Estado.

Está na hora de aplicarmos a mesma lógica à velhice. Uma sociedade que envelhece não pode transferir às famílias a responsabilidade exclusiva pelo cuidado. Também será necessária uma aldeia inteira para envelhecermos com dignidade.

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