Cosan precisa de caixa, mas avisa que não vai vender a Rumo a qualquer preço

Cosan precisa de caixa, mas avisa que não vai vender a Rumo a qualquer preço

A Cosan reforçou que segue com seu plano de zerar o endividamento da holding, mesmo após ter reduzido sua dívida líquida expandida de R$ 23,5 bilhões para R$ 9,8 bilhões ao longo de 2025. O grupo descarta, porém, vender parte de seus ativos a qualquer valor para acelerar esse processo.

Mesmo com a necessidade de fazer caixa, a diretoria do grupo controlado por Rubens Ometto e André Esteves desmentiu negociações para vender sua fatia de 30% na operadora ferroviária Rumo para a Ultrapar e a gestora Perfin, uma das principais acionistas da Cosan desde o follow-on de setembro.

O CEO Marcelo Martins disse que a movimentação seria fruto de especulação de potenciais interessados tentando derrubar o preço das ações para comprar barato.

“Não temos neste momento absolutamente nenhum engajamento para fazer a operação que foi veiculada no mercado”, afirmou durante a teleconferência com analistas sobre os resultados do quarto trimestre de 2025 nesta terça-feira (10). “Isso não nos interessa.”

Abertos a negócio

Martins reconheceu que a venda de participações em ativos do portfólio faz parte da estratégia de desalavancagem, mas foi enfático ao negar que haja urgência ou que algum negócio específico esteja na linha de frente. “Nenhum acionista da companhia hoje nos pressiona para fazer um deal a qualquer preço”, disse o CEO.

O CFO Rafael Bergman destacou que a companhia também enxugou sua estrutura interna: o quadro de funcionários da Cosan foi reduzido entre 40% e 45%. O objetivo final, segundo Martins, é mais ambicioso: zerar a dívida da holding. 

“No passado, podíamos justificar nossa alavancagem pelo objetivo de crescimento do portfólio. Hoje, essas questões estão todas fora da mesa.” Para o CEO, a estrutura que a Cosan mantinha até então perdeu o sentido. “A holding da forma como existia no ano passado não tem mais razão de continuar.”

A Cosan encerrou o quarto trimestre de 2025 com dívida líquida expandida de R$ 9,8 bilhões, queda de quase R$ 14 bilhões em relação ao mesmo período de 2024, após uma série de operações que incluíram a venda de ações da Vale, um follow-on de R$ 10,5 bilhões ancorado por BTG Pactual e Perfin.

Em paralelo, o grupo também fez uma venda parcial de ações da Rumo, cerca de 10% do capital, combinada com a contratação de um total return swap, instrumento pelo qual a Cosan vendeu parte da fatia na ferrovia para reforçar o caixa, mas manteve exposição econômica ao ativo.

O avanço, porém, ainda não se reflete no fluxo de caixa da holding: o índice de cobertura do serviço da dívida, que mede se os dividendos recebidos das controladas são suficientes para pagar os juros, encerrou o ano em 0,9 vez, abaixo do patamar mínimo de 1,0 vez. 

IPO da Compass

O próximo passo concreto da desalavancagem já tem endereço: a Cosan protocolou na semana passada o pedido de registro para um IPO da Compass Gás e Energia, dona da Comgás.

A oferta será integralmente secundária, ou seja, sem emissão de novas ações, com os recursos indo diretamente para o caixa da holding, que será a vendedora dos papéis. A expectativa no mercado é que a operação movimente cerca de R$ 5 bilhões.

Na teleconferência, Martins reforçou que a capitalização de setembro nunca foi o ponto de chegada. “Sempre deixamos claro que o follow-on não era o último passo dessa história, era o início”, disse o CEO. O IPO da Compass é, segundo ele, a demonstração mais concreta desse compromisso.

Crise da Raízen

Enquanto a Cosan avança na desalavancagem, a Raízen segue em terreno incerto. A joint venture com a Shell acumula prejuízo de R$ 19,8 bilhões no ano-safra 2025/26 e, em fato relevante divulgado na última, revelou estar avaliando uma solução abrangente para sua estrutura de capital.

A proposta inclui um aporte de R$ 4 bilhões, sendo R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões de um veículo da família Ometto, a Aguassanta Investimentos, além da reestruturação do endividamento com possível conversão de dívida em capital. Uma recuperação extrajudicial segue como instrumento possível, caso necessário.

Chama atenção, porém, que a Cosan não participa dessa solução. Segundo Martins, a companhia dedicou os últimos seis meses tentando construir uma estrutura de capitalização que justificasse sua participação direta. As conversas, porém, não chegaram a um acordo nos termos que considerava adequados.

O ponto de ruptura foi a arquitetura do negócio. A Cosan defende que uma solução definitiva para a Raízen passa pela separação dos negócios da joint venture, com estruturas de capital distintas para o segmento de etanol, açúcar e bioenergia e para a distribuição de combustíveis. 

“São negócios com geração de caixa distintas e que exigem uma estrutura de capital também distinta”, disse Martins. “A não separação dos negócios para a gente é um problema.” Sem essa condição atendida, o aporte não estava justificado, especialmente diante das restrições de capital que a própria holding ainda enfrenta.

Martins afirmou que a Cosan continua acompanhando o processo como acionista e conselheira, e acredita que “nos próximos dias” devem surgir novos desdobramentos. O engajamento dos credores, segundo ele, está avançando de forma estruturada.

Share this content:

Publicar comentário