IA pode ironicamente piorar profissionais por prejudicar sua formação

IA pode ironicamente piorar profissionais por prejudicar sua formação

No início desta semana, abordei, neste espaço, como a inteligência artificial pode influenciar a redução das jornadas de trabalho, em meio aos debates pelo fim da escala 6×1. É preciso ter claro que a tecnologia não cria magicamente profissionais com desempenhos superlativos. Pelo contrário, ela pode prejudicar esse processo.

Existe uma grande empolgação em torno da IA, fomentada pelas big techs e ampliada por gurus que vivem do tema, de uma maneira irresponsável. Mas seu incrível poder e o uso inegavelmente fácil não criam automaticamente profissionais mais capacitados.

A verdade nua e crua é que apenas aqueles que já dominam seu trabalho usam a inteligência artificial verdadeiramente bem. Já virou lugar comum dizer que é preciso fazer boas perguntas para a IA, mas pouco se fala que é igualmente importante analisar as suas respostas.

Muita gente não sabe fazer ou nem se importa com isso, aceitando candidamente as respostas algorítmicas. Isso se deve a uma formação acadêmica ruim, a uma capacitação profissional limitada e a posicionamentos corporativos equivocados sobre a IA.

De fato, as empresas parecem à vontade para substituir pessoas por robôs sem muito critério. Um estudo do Gartner, publicado em janeiro, indicou que apenas 1% das pessoas demitidas “por causa da IA” no primeiro semestre de 2025 passaram por isso depois que a tecnologia havia efetivamente melhorado a produtividade. Todos os demais desligamentos aconteceram por expectativas de resultados que talvez nunca se materializem. A consultoria também sugere que metade acabará sendo recontratada até 2027, ainda que em outras funções.

Funcionários mais experientes acabam sendo poupados dos cortes, justamente porque são necessários por sua visão crítica, mas as empresas não contratam outros com esse perfil. Do outro lado, os que estão começando sua carreira são os mais demitidos.

Isso nos leva ao segundo dos problemas acima. Esse uso descuidado da IA está fechando a porta de entrada da evolução profissional. Sem essa chance de aprender com as tarefas mais simples, os novatos terão dificuldade de se tornar especialistas.

A esperança seria uma formação acadêmica realmente qualificada, mas aí caímos no primeiro problema. Em uma sociedade que exige resultados imediatos e com transformações digitais intensas, as pessoas são incentivadas a investir em cursos muito curtos para aprender micro-habilidades de aplicação imediata.

Alguma educação é melhor que nenhuma educação. Mas esse fast-food educacional não leva os indivíduos a um novo patamar cognitivo, pois não são convidados a pensar.

É importante que fique claro que não se trata de preguiça, mas de escassez estrutural de tempo e renda. Quem trabalha por longas horas e ganha pouco não consegue investir anos em formação profunda.

O problema é que a melhora na produtividade vem sobretudo com cursos mais longos, como MBAs, mestrados e doutorados. Ainda assim, contam-se nos dedos quantos pode investir milhares de reais todo mês e esperar anos para concluir essas formações.

Esses problemas precisam ser atacados de frente, sem demagogia ou paliativos. Se o Brasil continuar tratando educação como fast-food, a inteligência artificial não ampliará nossa produtividade. Pelo contrário, ela tornará mais rápida a substituição de profissionais mal preparados.

Esperar que o trabalhador resolva isso sozinho é uma ilusão. Dessa forma, o país aprofundará sua já gritante desigualdade, com a IA ampliando esse quadro, em vez de combatê-lo.

Enquanto isso, debatemos se a redução da jornada de trabalho colapsará a economia e se o descanso semanal é um “custo”. Temos que transcender esses questionamentos para descobrir como as pessoas podem usar seu tempo livre para estudar mais e melhor, e assim melhorarem sua produtividade.

Sem isso, continuaremos nesse atoleiro de promessas políticas e tecnológicas que afundará cada vez mais o país e sua população.

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