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O ano termina com uma chinelada no bom senso preparando um 2026 insano

O ano termina com uma chinelada no bom senso preparando um 2026 insano

Quando tudo caminhava para uma pacífica ceia de Natal, as Havaianas soltaram um comercial que incendiou o país. Tudo porque a atriz Fernanda Torres o inicia com a frase “eu não quero que você comece 2026 com o pé direito”. O trocadilho com o ditado popular propunha que todos usassem os dois pés, começando janeiro de maneira plena. Mas quando a irracionalidade sequestra o debate público com fúria visceral, mesmo um desejo de ano novo se torna uma arma.

Esse é o retrato do nosso tempo. O bom senso foi afogado na bile da nação, prenúncio de mais um ano eleitoral terrível, qualquer que seja o seu pé preferido, com muita violência verbal e física, intolerância extrema e nenhum debate. Tudo do que o Brasil não precisa!

Muitos disseram que a Alpargatas, fabricante das Havaianas, fez tudo isso de caso pensado, ao escalar uma atriz associada a pautas progressistas para começar o comercial com aquela frase.

Não tenho como avaliar isso, mas acho pouco provável, pelo histórico de seus comerciais e porque seria ruim para os negócios. De fato, suas ações fecharam em queda de 2,39% na segunda, uma perda de R$ 152 milhões em valor de mercado. Curiosamente, os papéis da Grendene, fabricante da concorrente Ipanema, também recuaram, cedendo 0,19%.

Foi chinelada para todo lado, com gente criticando e apoiando uma marca que, até então, era unanimidade nacional.

Ouvi muita gente boa dizendo que ninguém pode se dar ao luxo de cometer um descuido desses. Se Fernanda Torres tivesse pulado a primeira frase, talvez nada tivesse acontecido. Se outra pessoa tivesse seguido o script completo, da mesma forma estaria tudo bem. Ou seja, a “mancada” foi a combinação de fatores, o contexto.

Esse raciocínio leva a um caminho muito perigoso. E aí está o grande ensinamento deste caso.

Nada justifica essa reação. O debate de ideias é o pilar da democracia desde que os atenienses a criaram no século V a.C. Portanto, na hipótese de se tratar de uma peça política, quem se alinhasse a ela compraria mais Havaianas, e quem não gostasse iria de Ipanema.

A Teoria da Comunicação determina que ela depende do emissor, do receptor, do meio, da mensagem e do ruído. O primeiro emite a mensagem e o segundo a interpreta a partir de seu repertório, das condições do meio e, sobretudo, do ruído que a distorce.

Em 1964, o comunicólogo canadense Marshall McLuhan popularizou o conceito de que “o meio é a mensagem”, ou seja, o meio reorganiza como percebemos o mundo. As redes sociais levaram isso às últimas consequências. Grupos que chutam só com o pé direito ou esquerdo sequestraram esse, que é o mais poderoso de todos os meios, para distorcer absurdamente a mensagem.

Esses extremistas arrancaram o debate de fóruns civilizados e construtivos, como a imprensa, a academia e a ciência, para seu benefício próprio. Por isso, a proposta de que marcas e pessoas precisam se “proteger” dessa insanidade implicaria que a violência venceu e que a sociedade se tornou refém do medo desse câncer chamado “cancelamento”. Nesse circo de horrores, ninguém está seguro, pois qualquer palavra, qualquer voz, qualquer ideia podem ser perversamente distorcidas por interesses mesquinhos.

Esse apelo se torna ainda mais dramático quando se observa que a inteligência artificial já oferece subsídios para legitimar ainda mais essa insanidade. Diante dela, o mal causado pelas redes sociais “ficará no chinelo”.

As pessoas, mesmo com boa formação, não têm recursos para escapar desse massacre cognitivo. Devemos desesperadamente reconstruir o debate e a tolerância, e fugir do extremismo. No final, precisamos usar nossos dois pés para caminhar mais longe, e que seja já em 2026.


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