O que vai acontecer com as debêntures e CRAs da Raízen com a recuperação extrajudicial?
O pedido de recuperação extrajudicial da Raízen vai impactar R$ 11,4 bilhões em dívidas ainda vigentes detidas por investidores de debêntures e certificados de recebíveis do agronegócio (CRA). Do total, há R$ 5,4 bilhões em cada instrumento.
Para os investidores, o impacto mais direto recai sobre os CRAs, já que a maioria das emissões desses certificados pela produtora e distribuidora de etanol teve entre 60% e 90% de participação de pessoas físicas, segundo levantamento exclusivo obtido pelo InvestNews, realizado pela plataforma de crédito privado Vitrify.
Já no caso das debêntures, a maior parte está nas mãos de bancos e fundos de crédito.
Trata-se, portanto, do maior evento de crédito privado no mercado brasileiro desde o caso Americanas, em 2023. Mas em termos de volume de títulos de dívida privada, a Raízen supera – em muito – a situação da rede varejista, que tinha, na época, um volume de R$ 5 bilhões em debêntures e quase nada em CRIs e CRAs.
O que investidor deve fazer?
E o que o investidor deve fazer a partir de agora? Um gestor de crédito, que pediu para não ser identificado, recomendou às pessoas físicas aguardarem as negociações.
Como se trata de uma recuperação extrajudicial (REJ) e não judicial (RJ), a tendência é de que os descontos propostos sejam menores do que as perdas se o títulos forem vendido no mercado secundário. Na REJ, diferentemente da versão judicial, os papéis ainda podem ser vendidos nesse ambiente de negociação de títulos “usados”, onde os ativos são repassados a outro interessado antes dos vencimentos.
No entanto, diante das incertezas sobre as negociações, o valor dos títulos vai despencar. De fato, uma consulta às plataformas digitais, na manhã desta quarta-feira (11), mostra uma ausência de debêntures e certificados da Raízen sendo oferecidos.
Antes da recuperação, esses papéis chegaram ser vendidos no secundário com descontos de até 70% em relação ao valor original. Diante disso, o mercado de usados ficou praticamente inviável nesse primeiro momento, porque enquanto as negociações não avançarem não há bases concretas de precificação.
Outro problema: lastro em debêntures
Os R$ 5,4 bilhões em CRAs da Raízen têm ainda uma outra característica problemática. Embora sejam instrumentos com garantias, que, no caso de um evento de crédito, seriam passíveis de serem acionadas, todas as emissões de certificados da produtora tiveram como lastro debêntures emitidas por empresas do próprio grupo.
Na prática, significa que não há, no momento, garantias a serem acionadas. Nesse caso, o tamanho do estrago em termos de descontos e aumento de prazos vai depender das negociações feitas pelos debenturistas.
“Nesse caso, o investidor não é credor direto da empresa emissora das debêntures; o fluxo de pagamento do CRA depende do desempenho desses ativos”, explica a especialista Letícia Domingues, do escritório Zonenschein Advocacia.
De qualquer modo, o investidor dos certificados não se envolve diretamente nas negociações com a Raízen, porque a securitizadora que estruturou as emissões fica responsável por representar os detentores de CRAs.
O esperado para as negociações é que os detentores de títulos de dívida vão ter de amargar algum desconto dos valores a receber, bem como um alongamento de prazos. Em outros casos de recuperação extrajudicial, houve até troca de indexadores dos papéis.
Dívidas vão ter “moratória” de três meses
Os descontos (haircut) tendem a ser menos agressivos que no caso de uma recuperação judicial, em que os cortes podem atingir até 80% do valor da dívida. Em casos recentes de REJ, houve perdas mais suaves, de até 20% do valor original, com foco maior no alongamento de prazos.
No caso das debêntures, muitas propostas incluíram a conversão dos títulos em participação acionária.
De qualquer modo, ainda é cedo para saber quais serão as condições propostas e aprovadas nas assembleias de credores.
Outro custo para os investidores é que, durante o prazo de standstill (período em que os credores suspendem temporariamente as cobranças para permitir a negociação da dívida), que deve ser de 90 dias, os pagamentos ficam congelados. É uma espécie de moratória em que os detentores da dívida ficam sem receber, enquanto a companhia negocia as novas condições.
Capacidade de pagamento
Em termos de capacidade de pagamento, a situação é menos preocupante. A Raízen ainda teria R$ 20 bilhões em caixa, o que seria suficiente para honrar as dívidas de 2026 e 2027. Ou seja, a pressão do custo da dívida, que drena R$ 7,5 bilhões por ano da companhia, é maior do que a dos vencimentos próximos.
A companhia tem um vencimento de R$ 600 milhões em março agora. E, depois, apenas outro de R$ 352 milhões, mas em junho de 2027.



Publicar comentário