‘Um orelhão me ajudou -e muito- no início do namoro’: você tem histórias com os antigos telefones?
“Nem sabia que existia”, disse o adolescente de 18 anos, Nicolas Vieira, ao ser questionado sobre a retirada dos orelhões das ruas. Para a nova geração, o telefone público pode parecer só mais um objeto ultrapassado. Para quem viveu a época em que ele era a principal ponte entre AS pessoas, no entanto, a história é outra.
Inaugurado em 20 de janeiro de 1972 no Rio de Janeiro, o orelhão virou cenário de encontros, despedidas, notícias urgentes e conversas que precisavam caber no tempo das fichas. Mais do que um equipamento urbano, ele fez parte da rotina e da memória de milhões de brasileiros.
Com a retirada dos aparelhos das ruas, devido ao fim do contrato de concessão da telefonia pública fixa e o aumento do uso de celulares, o saudosismo veio à tona.
Coincidentemente, o adeus ao aparelho mescla com o estouro de O Agente Secreto, filme que concorre ao Oscar e tem um orelhão amarelo como destaque. Com a lembrança, várias outras ‘histórias de orelhão’ vêm à tona.

Orelhão, que já foi essencial na vida das pessoas, hoje dificilmente é usado Foto: Taba Benedicto/ Estadão
‘Era outra velocidade: não estar o tempo todo conectado’
“É super interessante esse fenômeno, tem muita gente comentando sobre o orelhão, relembrando historias e é porque ele representa um outro tempo… Inclusive do País. Era outra velocidade, de não estar o tempo todo conectado, era muito diferente essa relação com o tempo e com a comunicação e tem muita gente que tem saudade dessa época”, comenta Alan Chu, arquiteto e filho da criadora do orelhão.
O aparelho telefônico com formato inusitado foi projetado em 1971 pela arquiteta chinesa Chu Ming Silveira, que veio para o Brasil com os pais ainda criança. Quando ela trabalhava na Companhia Telefônica Brasileira (CTB), ela foi designada para estudar uma proteção para o telefone de uso público, e criou o design que virou ícone do espaço urbano brasileiro.
“Minha mãe estava focada em solucionar uma questão da época, inclusive a econômica. Então é um produto que usa pouco material, material adequado, a fibra, e podia ser produzido industrialmente, é de fácil instalação, fácil reposição, e não tem muitas peças. Então tem uma serie de qualidades em relação ao design, que tornou a peça um sucesso”, diz Alan Chu.
‘É aqui o orelhão em que a gente conversa’
Foi um orelhão que ajudou (e muito) no namoro do produtor cultural Luiz Gustavo Maluf e a advogada Ana Claudia Maluf. Ambos originalmente de Piracicaba, tiveram que viver separados, nos seus 20 anos de idade, para que Luiz fizesse a faculdade de jornalismo em São Paulo.
Assim, ao longo de 18 meses, ele e a então namorada – hoje esposa e mãe da sua filha, Alice, de 9 anos -, eles matavam a saudade com conversas pelo orelhão.
“Na época o interurbano era caro, falar no celular era um absurdo então a gente esperava dar 22h, que o pulso [jeito que chamavam a ligação] era mais barato para conversar”, conta Ana. “É um período que a gente guarda com nostalgia porque era inicio de namoro, tinha toda uma expectativa”, completa Luiz.
Hoje, o casal conta que fica o dia inteiro se comunicando por mensagens. “Naquele tempo não tinha a facilidade de hoje, não tinha WhatsApp que a gente pode se falar o tempo todo. Tinha que segurar a saudade até a noite”, diz Ana. “E quando eu ia para São Paulo, ele fazia questão de me apresentar o aparelho. Falava: ‘é aqui o orelhão que você me liga, aqui que a gente conversa’”, lembra ela.

Luiz e Ana Maluf, juntos há 20 anos, mataram a saudade da distância por ligações de orelhão Foto: Arquivo pessoal
‘Aquela fila imensa’
Outros usuários, como o empresário carioca Marcos Vinícius, 62 anos, têm memórias da faculdade.
“Lembro que tinham orelhões dentro do campo universitário. O inspetor ficava perto do orelhão, que era próximo à cantina e formava aquela fila imensa porque não tinha celular. Aí ligava para casa: ‘Vó, hoje não vou almoçar’, essas coisas e tal de núcleo familiar”, lembra.
‘Um gesto de carinho’
Alan, o filho da criadora Chu Ming Silveira teve diferentes sentimentos pelo orelhão durante sua vida.
“Quando eu era criança, eu contava para os meus amigos da escola sobre minha mãe ser a inventora do orelhão e ninguém acreditava muito; davam risada e tal. Só que mais velho, a situação se inverteu. Todo mundo que viajava para algum lugar do Brasil e via um orelhão me mandava uma foto, principalmente os orelhões mais adulterados”, conta ele citando os orelhões em formato de água de coco, berimbau e papagaio.
“Na época, me incomodava porque é uma adulteração do design, mas eu entendi que é um gesto de carinho, que o orelhão se tornou um símbolo tão importante pra cultura brasileira que as pessoas queriam se apropriar e regionalizar a peça”, diz.
De acordo com a Anatel, “não há exigência regulatória para a manutenção do funcionamento e disponibilidade dos telefones públicos (orelhões) com base em sua forma externa ou valor cultural”.
Em nota, eles afirmaram que “na presença de alternativas tecnológicas que atendam satisfatoriamente à demanda por comunicação de voz, a decisão de manter ou desativar os telefones públicos passa a ser discricionária da prestadora.”
‘O orelhão te daria uma chance’
Para o engenheiro Gilson Vasconcelos, de 84 anos, a retirada dos aparelhos é uma perda. “Muitas vezes você esquece celular, acaba a bateria, uma série de coisas e o orelhão te daria essa chance. Tiraram. Acho uma perda”, opina.
Ao longo dos seus 30 anos, ele afirma que usou muito o aparelho. “O telefone era uma coisa muito rara, muito cara, então usávamos o orelhão da rua. Ligava para namorada, negócios, todo tipo de ligação. E você precisava caminhar com fichas no bolso, era como uma moeda”, relembra.
‘Desespero, mas deu tudo certo’
Toni Assis, jornalista de esportes do Estadão, também lembra quando o aparelho salvou seu trabalho. Nos anos 90, quando ele era setorista do Corinthians, teve um problema no envio da matéria e correu para o orelhão.
“Eu tinha um horário de fechamento, estava com o material todo pronto para entregar, preparei a transmissão mas na hora de mandar, a linha não ia. Tive que ir para o orelhão da rua e ditar toda uma matéria”, lembra ele. “No meio da rua com o telefone, um computador e um desespero total mas no final deu tudo certo.”
‘Hoje ninguém mais usa’
Já para outro grupo, a retirada dos orelhões teria que acontecer. “Eu não tenho saudade não. Hoje está bem melhor”, resume a cozinheira Isabel Gonçalves Kasak, de 76 anos.
O taxista João Batista Lima de Almeida, de 52 anos, lamenta, mas apresenta resignação. “Hoje ninguém mais usa por conta do celular. Mas é triste. Antigamente era duas horas na fila para falar ali, especialmente no domingo. Aqui formava fila que chegava na esquina”, recorda ele. “Deveriam reestruturar, pelo menos em cada lugar ter um e deixar para lembrar.”



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