Um levantamento inédito realizado pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) revelou que 38% das mulheres com deficiência no Brasil já foram vítimas de violência doméstica ao longo da vida. O percentual equivale a cerca de 1.075 entrevistadas dentro de uma amostra de 2.828 mulheres com deficiência ouvidas pelo estudo, projetando um universo de aproximadamente 11,7 milhões de brasileiras nessa condição em todo o país.
O estudo aponta que o grupo é atingido com maior frequência do que as mulheres sem deficiência, cuja incidência é de 28%. Além disso, 19% das mulheres com deficiência relataram ter sofrido agressões nos últimos 12 meses anteriores à pesquisa, sendo que para 69% delas o ciclo de violência se estende por mais de um ano. A pesquisa ouviu por telefone 21.641 brasileiras com 16 anos ou mais entre maio e julho de 2025.
Entre as vítimas com deficiência, as violências sexual e patrimonial destacam-se com taxas superiores às observadas entre mulheres sem deficiência. A violência sexual foi apontada por 39% das vítimas com deficiência, comparado a 28% no outro grupo, enquanto a violência patrimonial atingiu 46% das entrevistadas afetadas. Em 65% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão mais grave.
Especialistas ouvidas pelo estudo destacam que fatores socioeconômicos e o capacitismo agravam a vulnerabilidade dessas mulheres. Cerca de 78% das mulheres com deficiência não exercem trabalho remunerado e 48% não conseguem se sustentar financeiramente. A dependência financeira e de cuidados, muitas vezes camuflada sob a justificativa de proteção ou cuidado, restringe a autonomia e dificulta o reconhecimento das situações de abuso como violência.
A pesquisa também escancara barreiras no acesso à informação e aos órgãos de proteção. Aproximadamente 18% das entrevistadas com deficiência afirmam não ter nenhum conhecimento sobre a Lei Maria da Penha, e 23% desconhecem as medidas protetivas de urgência. Diante das agressões, 83% das vítimas com deficiência optam por não denunciar, e apenas 16% recorreram ao serviço Ligue 180 para buscar auxílio.
Diante desse cenário alarmante, analistas e representantes de institutos reforçam a urgência de que as políticas públicas e os serviços de atendimento do Estado considerem as barreiras de comunicação, a acessibilidade e as necessidades específicas desse público. A recomendação central é incorporar ativamente as mulheres com deficiência na formulação de estratégias de enfrentamento à violência e ampliação de direitos.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
