Acordar indisposto e, ainda assim, enfrentar uma jornada pesada de trabalho é uma rotina comum para uma fatia expressiva de trabalhadores. Pesquisas indicam que entre um terço e metade das pessoas no Reino Unido continuam ativas mesmo quando enfermas, comportamento que especialistas denominam de “presenteísmo”. Em contrapartida, as gerações mais novas demonstram uma preocupação maior com o próprio bem-estar, incluindo a saúde mental.
O professor Cary Cooper, psicólogo da Universidade de Manchester e referência mundial em bem-estar corporativo, aponta que essa postura das gerações mais jovens não deve ser encarada como “mimimi”. Para ele, embora gerações anteriores tenham sido mais tolerantes com a dedicação incondicional e o sacrifício pessoal pelo emprego, isso não significa que tal escolha seja sinônimo de saúde ou longevidade produtiva.
Vários fatores psicológicos explicam a resistência em se afastar durante a enfermidade. Entre eles está a centralidade do trabalho, conceito da psicologia organizacional que liga a ocupação diretamente à identidade do indivíduo. Quando o ofício é parte central de quem a pessoa é, tirar dias de descanso pode gerar a sensação angustiante de perda temporária de uma parte de si mesmo, elevando o desejo de comparecer a todo custo.
Profissionais de áreas voltadas ao cuidado, como médicos, enfermeiros e professores, costumam relatar essa tendência de forma acentuada. Psicólogos apontam que muitos prefeririam sofrer um acidente físico palpável apenas para ter uma justificativa aceitável de ausência do que simplesmente tirar um dia de folga por exaustão ou adoecimento invisível. O medo de parecer fraco ou preguiçoso também recae fortemente sobre iniciantes na carreira, que evitam causar má impressão.
Além dos fatores individuais, a própria cultura organizacional desempenha um papel determinante. Ambientes sobrecarregados, onde há escassez de cobertura para faltas, geram culpa e vergonha nos funcionários por sobrecarregarem os colegas. Em locais tóxicos que priorizam a produtividade cega, o presenteísmo é estimulado e recompensado por gestores que elogiam o funcionário que adoece no posto.
Por fim, definir o limite entre estar apto ou inapto para o labor exige atenção aos sinais do corpo e da mente. Sintomas físicos como febre, vômito ou diarreia exigem repouso obrigatório, enquanto resfriados leves na era pós-pandemia ganharam a alternativa do trabalho remoto. Contudo, especialistas reforçam que ignorar o esgotamento mental e notar quedas nos cuidados básicos pessoais e na qualidade do sono são alertas claros de que a prioridade deve ser o repouso e a recuperação.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
