Compreender o racismo exige ir muito além da visão de que ele se resume a ofensas individuais ou atitudes de preconceito isolado. O fenômeno está profundamente enraizado na própria arquitetura da sociedade, manifestando-se de forma silenciosa e contínua na justiça, nas oportunidades laborais, nas instituições de ensino e nos serviços de saúde, operando por meio de estruturas que aparentam neutralidade.
Conforme aponta o filósofo Silvio Almeida, essa dinâmica é uma consequência da própria organização social, refletindo o modo habitual com que as relações políticas, econômicas e culturais se constituem. Trata-se de uma construção histórica que remonta ao período escravista brasileiro e continua a ditar os valores, comportamentos e a distribuição de poder no país.
As estatísticas oficiais refletem essa herança social. Dados da PNAD-Contínua referentes a 2025 ilustram a disparidade educacional: enquanto a taxa de analfabetismo entre pessoas brancas de 15 anos ou mais era de 2,8%, o índice alcançava 6,5% entre pretos e pardos. A média de anos de estudo também evidencia a desvantagem, com 11,1 anos para brancos frente a 9,5 anos para a população negra.
No âmbito econômico, informações do Ministério do Trabalho corroboram o cenário de desigualdade racial. A participação da população negra no mercado de trabalho permanece inferior à dos não negros, ao passo que as taxas de desocupação e subocupação são mais elevadas, afetando de maneira ainda mais severa as mulheres negras.
A professora Márcia Eurico destaca que essas disparidades não ocorrem por acaso, mas representam consequências de uma história que demanda reparação. O enfrentamento dessa realidade exige a formulação e a implementação de políticas públicas efetivas, além do reconhecimento de que a sociedade brasileira é estruturalmente racista.
Enxergar a dimensão histórica do problema liberta a sociedade da falsa premissa de que as desigualdades são naturais. Como o racismo foi construído socialmente, ele pode ser desconstruído. O primeiro passo para a transformação consiste em abandonar a ilusão de igualdade imediata e trabalhar ativamente por um país que garanta direitos e condições iguais para todos, independentemente da cor ou origem.
Fonte: tnonline.uol.com.br
