Com uma regularidade quase burocrática, figuras da literatura e das artes de origem judaica enfrentam frequentes episódios de cancelamento promovidos por patrulhas antissionistas. O caso mais recente envolveu a aclamada escritora argentina Ariana Harwicz, que acabou sendo excluída de um festival literário na cidade de Granada, na Espanha.
O ‘crime’ atribuído a Harwicz foi ter se oposto publicamente ao boicote direcionado a escritores, cantores e artistas israelenses, defendendo o princípio de que os indivíduos não devem ser responsabilizados pelas ações de seus governos. Essa postura de coerência já havia sido adotada pela autora quando protestou contra restrições semelhantes impostas a artistas russos após a invasão da Ucrânia.
A dinâmica desse processo evidencia uma lógica perigosa: primeiro, promovem-se boicotes contra artistas de Israel sob o pretexto de contestar a administração de Binyamin Netanyahu; em seguida, penaliza-se uma escritora judia argentina apenas por refutar a imposição de culpa coletiva. Para observadores atentos, torna-se evidente a manifestação da antiga intolerância antissemita.
Trata-se de uma tragédia profunda para os judeus que habitam o Ocidente, mas representa um dano igualmente severo para as próprias sociedades ocidentais que toleram esse veneno. A história demonstra que o antissemitismo corrói a riqueza, o conhecimento, a diversidade e a tolerância de uma nação, comprometendo irremediavelmente o seu futuro.
Portugal oferece um exemplo histórico claro dessa autodestruição com a expulsão, conversão forçada e perseguição sistemática dos judeus portugueses a partir do final do século 15, o que resultou em um enorme retrocesso econômico e cultural para o país. Em contrapartida, nações que acolheram esses exilados colheram frutos expressivos em termos de desenvolvimento intelectual e comercial.
Na Alemanha do século 20, o expurgo acadêmico e a expulsão de mentes científicas judaicas durante o regime nazista privaram o país de sua vanguarda intelectual, impedindo uma recuperação plena imediata. O fato de Granada perpetuar essa tradição excludente carrega uma ironia histórica marcante, lembrando o édito de expulsão assinado pelos reis católicos na mesma região em 1492.
Fonte: redir.folha.com.br
