Há laços forjados pelo sangue e há aqueles moldados pela vivência. No caso do quarteto Irmãos & Brothers, que se apresenta nesta terça-feira (29) no projeto Instrumental Sesc Brasil, as duas frentes se encontram de maneira singular. Formado por dois pares de irmãos — Sidiel Vieira no contrabaixo e Sidmar Vieira no trompete, ao lado de Leandro Cabral no piano e Vitor Cabral na bateria —, o grupo traduz em sons uma amizade de duas décadas e a força da negritude periférica de São Paulo.
O show, que contará com entrada gratuita para o público, serve como uma verdadeira ponte entre o passado recente e o futuro do conjunto musical. O repertório planejado transita pelas faixas de ‘Vol. 1’, álbum de estreia da banda, ao mesmo tempo em que abre um espaço essencial para composições inéditas que farão parte do segundo disco, atualmente em fase de gravação.
A redundância bem-humorada escolhida para o nome da banda sintetiza com perfeição a dinâmica de trabalho dos quatro músicos. Mais do que a própria consanguinidade, eles compartilham uma linguagem profunda fundamentada na música brasileira, na improvisação coletiva e nas culturas de matrizes africanas. O resultado prático é um som que foge da mera reprodução de velhas tradições, utilizando gêneros como samba-jazz, afro-jazz, bossa nova e boogaloo como alicerces para a reinvenção.
No palco, essa alquimia artística se materializa em temas autorais assinados por Sidiel Vieira e Leandro Cabral. Entre as faixas de destaque estão ‘Samba Jazz nº 4’, ‘Vitor – Vassi nº 3’, ‘Cloud Atlas’ e ‘For Haden’. O trânsito livre entre o rigor dos arranjos escritos e a liberdade inerente às improvisações abre caminho também para releituras marcantes de clássicos da nossa cultura.
A melancolia poética de Cartola, expressa em ‘As Rosas Não Falam’, e o vigor do hard bop de Clifford Brown, traduzido em ‘Blues Walk’, ganham novas e surpreendentes roupagens sob a perspectiva refinada do quarteto. O peso do Irmãos & Brothers reside também na bagagem individual robusta de seus integrantes, todos músicos altamente requisitados nas cenas instrumental e popular do país.
Leandro Cabral, com referências que vão desde Egberto Gismonti até Herbie Hancock, já colaborou com grandes expoentes como Ed Motta e Maria Rita. O baixista Sidiel Vieira acumula trabalhos expressivos ao lado de nomes como Dianne Reeves, Cesar Camargo Mariano e Romero Lubambo. Por sua vez, Sidmar Vieira integra a Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo e transita com facilidade entre a experimentação contemporânea e o jazz tradicional.
Completando a formação, o baterista Vitor Cabral — reconhecido como o primeiro brasileiro a receber uma bolsa integral da prestigiada Berklee College de Música, nos Estados Unidos — atua ao lado de artistas como Xênia França e dedica-se intensamente à pesquisa das conexões entre a percussão nacional e as raízes indígenas e africanas.
Presenciar a performance ao vivo deste quarteto vai muito além de apenas prestigiar o virtuosismo técnico de quatro dos instrumentistas mais talentosos do Brasil. Trata-se de uma oportunidade ímpar de testemunhar a potência da música instrumental nacional quando impulsionada pela excelência, pela vivência negra e pela mais genuína conexão afetiva, reafirmando o palco como um espaço vital de ancestralidade e resistência cultural.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
