A erudição do ensaísta e editor italiano Roberto Calasso revela uma capacidade ímpar de instigar o leitor a partir de uma premissa aparentemente simples: recontar o Antigo Testamento da Bíblia, integrando ocasionalmente reflexões sobre o Novo Testamento. A obra em questão, intitulada “O Livro de Todos os Livros”, traz uma abordagem fascinante sobre figuras icônicas como Adão e Eva, Noé e Moisés, desafiando a percepção de que esses relatos já estariam totalmente esgotados.
O volume, lançado pela Companhia das Letras com tradução de Roberta Barni, custa R$ 129,90 na versão impressa de 392 páginas e R$ 44,90 no formato digital. Na empreitada, Calasso demonstra amplo domínio não apenas da Bíblia hebraica, mas também de suas traduções canônicas pré-modernas, a exemplo da Septuaginta em grego e da Vulgata em latim, além das ricas tradições exegéticas judaicas e cristãs primitivas.
O grande diferencial da análise reside na forma como o autor evidencia os aspectos profundos, alienígenas e intencionalmente repletos de lacunas do texto sagrado. Em vez de tratar essas brechas como falhas textuais, Calasso examina passagens misteriosas — como o aceite das oferendas de Abel em detrimento das de Caim ou a disposição de Abraão de sacrificar o filho Isaac — como enigmas que resistem bravamente a qualquer tentativa de simplificação moral.
Adotando uma estrutura não linear e desafiadora, o livro inicia sua jornada antes mesmo da criação do cosmo, inspirando-se em tradições rabínicas, transita pelos primeiros reinados de Israel com Saul, Davi e Salomão, e retorna ao patriarca Abraão. Essa construção narrativa apoia-se no preceito judaico de que os versículos bíblicos podem ser justapostos e compreendidos como partes de um eterno presente conceitual.
Ao longo de suas digressões, o ensaísta convida figuras improváveis para o centro do debate literário e histórico, como o pai da psicanálise Sigmund Freud, cuja obra final sobre Moisés é revisitada para iluminar aspectos cruciais da trajetória judaica. O entusiasmo contagiante do autor pela antiga tradição da Vulgata em latim coroa a experiência de leitura, oferecendo um panorama culto e refinado sobre o texto bíblico.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
