A proximidade da formação de um novo e potente El Niño tem gerado forte apreensão e angústia em diversas regiões do Brasil, sobretudo entre populações que já enfrentaram eventos climáticos extremos recentes. A professora aposentada Sandra Motta, moradora de Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, relata constante estado de alerta e cansaço mental desde que sua casa foi devastada pelas inundações que atingiram o Rio Grande do Sul.
Para tentar se proteger de novos episódios trágicos, Sandra tomou a decisão de mudar de endereço, adquirindo um apartamento em uma zona mais alta do município. Contudo, a perspectiva de o fenômeno retornar — apontado por serviços meteorológicos internacionais como um dos mais intensos da história — alimenta o temor constante, agravado pela percepção de escassez de ações preventivas por parte do poder público.
Especialistas em saúde mental apontam que esse tipo de reação diante de cenários de catástrofe recorrente configura o chamado estresse climático antecipatório. Profissionais da área destacam que, embora o sofrimento e a antecipação de cenários catastróficos sejam desgastantes, muitas vezes funcionam como respostas adaptativas a uma realidade de vulnerabilidade ambiental.
Enquanto o Sul enfrenta o trauma das águas, a Região Norte lida com os impactos severos de estiagens históricas associadas aos ciclos anteriores do fenômeno climático. Na comunidade de Urucury, no município amazonense de Manicoré, líderes locais relatam dificuldades logísticas severas de navegação pelos rios e igarapés devido ao surgimento precoce de bancos de areia, além de prejuízos irreversíveis para a agricultura de subsistência.
O aumento na busca por informações sobre o fenômeno reflete o clima geral de preocupação no país. Dados de levantamentos recentes apontam que o interesse digital da população em relação ao El Niño disparou expressivamente nos últimos meses, liderado por estados das regiões Sul e Norte, além de localidades como Mato Grosso do Sul, evidenciando que a preocupação com as mudanças climáticas já faz parte do cotidiano de milhões de brasileiros.
Diante desse cenário de vulnerabilidade ampliada, pesquisadores e defensores de direitos socioambientais reforçam a importância de políticas públicas integradas de adaptação e prevenção, bem como o engajamento comunitário. A articulação coletiva, segundo especialistas, pode mitigar a sensação de desamparo e promover maior resiliência psicológica frente aos desafios impostos pela crise climática global.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
