A história que culminou no Prêmio Nobel de Química de 2026 teve início de forma inusitada há mais de 170 anos, a partir de resíduos gerados na produção de vinho. O cientista francês Louis Pasteur investigou substâncias como o ácido tartárico, encontradas em tonéis de fermentação e rolhas, percebendo que a molécula apresentava variações espelhadas, tal qual as mãos humanas.
Aos 25 anos, Pasteur descobriu a quiralidade, identificando compostos que ocorrem em duas versões simétricas, mas não idênticas. O Nobel deste ano foi dividido entre os cientistas Henri Kagan, de 95 anos, da Universidade Paris-Sud, e Kenso Soai, de 76 anos, da Universidade de Ciência de Tokyo, cujos trabalhos permitiram o controle rigoroso sobre a chamada homoquiralidade.
A falta de controle sobre substâncias quirais pode gerar sérias complicações em organismos vivos, cujos aminoácidos apresentam uma orientação específica à esquerda. Um dos episódios mais marcantes dessa relevância ocorreu nos anos 1960 com o uso da talidomida, fármaco prescrito para enjoos em gestantes cuja variação espacial incorreta da molécula causou graves más-formações fetais.
Enquanto Kagan refinou métodos para obter enantiômeros desejados através de reações assimétricas, Soai identificou reações em que o próprio catalisador se autogerava durante o processo. Nos anos 1990, Soai desenvolveu a substância quiral 5-pirimidil alcanol, capaz de produzir cópias de si mesma, criando quiralidade a partir de moléculas não quirais de forma inédita.
Especialistas destacam que a propriedade é fundamental não apenas para a indústria farmacêutica, mas também para o campo dos nanomateriais. Pesquisadores brasileiros têm sintetizado nanomateriais a partir de aminoácidos quirais, permitindo que a estrutura final adquira biocompatibilidade com proteínas e propriedades eletrônicas avançadas.
Esses desenvolvimentos permitem que nanomateriais quirais, quando expostos à luz, gerem reações capazes de inativar patógenos e até mesmo atuar como adjuvantes para aumentar a eficiência de vacinas. A onipresença da quiralidade na natureza abre perspectivas inovadoras para a ciência moderna e a saúde pública.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
