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Diretor de ‘Dau’ relaciona o terror soviético com a Rússia atual sob o poder de Putin

Em entrevista em Veneza, o cineasta Ilya Khrzhanovsky aponta paralelos entre a opressão da era soviética retratada em seu filme monumental e o governo de Vladimir Putin.

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Diretor de ‘Dau’ relaciona o terror soviético com a Rússia atual sob o poder de Putin

O longa-metragem “Dau”, um dos destaques do Festival do Rio, convida o espectador a estabelecer paralelos diretos entre a Rússia do período soviético e o país governado atualmente por Vladimir Putin. Com mais de três horas e meia de duração, a produção monumental ambientada entre 1928 e 1968 retrata uma população permanentemente acuada pela repressão estatal, uma dinâmica que, de acordo com análises, ainda persiste na sociedade russa contemporânea.

O diretor do projeto, Ilya Khrzhanovsky, rompeu de forma drástica com o governo de Moscou a ponto de renunciar à sua cidadania russa em 2024, motivado sobretudo pela indignação com a invasão da Ucrânia ocorrida dois anos antes. Paradoxalmente, o Ministério da Cultura ucraniano manifestou oposição à exibição de “Dau” no Festival de Veneza, classificando a presença do filme como um sinal alarmante devido aos vínculos de sua origem com o país agressor. Khrzhanovsky minimizou o protesto, compreendendo as motivações políticas de uma nação menor em confronto com um gigante.

Apesar da polêmica, a obra foi premiada com o troféu de melhor direção no evento italiano. O filme coroa um projeto colossal que exigiu a construção, entre 2009 e 2011, de um imenso cenário reproduzindo um instituto tecnológico soviético. O local foi habitado por centenas de não atores durante mais de um ano para simular a rotina sob o regime sufocante de Stálin e seus sucessores, inspirado na trajetória do físico e Nobel Lev Landau.

O processo de filmagem gerou controvérsias intensas ao longo dos anos, incluindo acusações de métodos abusivos e debates acalorados sobre cenas específicas de obras derivadas do mesmo universo criativo. No entanto, o cineasta rejeitou tais polêmicas, explicando que grande parte do material consistia em improvisações estruturadas sem roteiros de diálogos rígidos, priorizando a autenticidade das reações.

Para Khrzhanovsky, a permanência de estruturas autoritárias na Rússia decorre da ausência de um processo histórico de acerto de contas com o passado. O diretor aponta que a falta de rupturas radicais ou rituais de desmonte do stalinismo faz com que a mentalidade repressiva continue a influenciar as engrenagens do poder atual, sem que ele próprio imaginasse, no início das filmagens, os rumos drásticos que a política russa tomaria.

Após duas décadas dedicadas a esse monumental projeto multidisciplinar, o cineasta, que hoje reside entre a Alemanha e a França, avalia que o principal legado pessoal da experiência foi a compreensão da extrema fragilidade humana diante de cenários de brutalidade. Segundo ele, a fronteira entre o bem e o mal revela-se tênue e invisível, demonstrando como escolhas cotidianas podem conduzir a caminhos inesperados.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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