As marcas profundas deixadas pelo tráfico transatlântico de africanos escravizados, classificado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas como o crime mais grave já perpetrado contra a humanidade, ganham visibilidade por meio da obra ‘O Barco’. A instalação artística abriu para visitação do público a partir desta terça-feira no Sesc Pompeia, localizado na capital paulista.
Durante aproximadamente quatro séculos, milhões de pessoas originárias do continente africano foram sequestradas e comercializadas como mercadorias em colônias de nações europeias. O Brasil figurou como o principal destino dessa população forçada, recebendo mais de 4,8 milhões de escravizados que atravessaram o Oceano Atlântico em condições desumanas a bordo dos chamados navios negreiros.
A criação escultórica e performática é assinada pela artista portuguesa Grada Kilomba. A obra propõe uma provocação direta aos visitantes ao questionar qual narrativa o fundo do oceano revelaria caso fosse totalmente esvaziado de água. Segundo a autora, a proposta é confrontar os monumentos tradicionais que romantizam a expansão marítima europeia como um descobrimento glorioso.
Estruturada em uma área de 220 metros quadrados, a instalação é composta por 134 blocos de madeira queimada distribuídos ao longo de 32 metros de comprimento. A montagem reproduz a silhueta da estrutura interna de uma grande embarcação, evidenciando a arquitetura opressiva concebida nos porões dos navios negreiros para amontoar os corpos humanos.
A concepção da peça também dialoga com a tragédia grega de Antígona, questionando os critérios sociais que definem quais vidas merecem ser lembradas, choradas e sepultadas com dignidade. Para Kilomba, o oceano funciona como um grande espaço de sepultamento que engloba tanto as vítimas do colonialismo histórico quanto os refugiados e migrantes de conflitos contemporâneos.
Devido às dimensões monumentais, a obra passou por adaptações para ocupar o Espaço Galpão do Sesc Pompeia, mantendo em seu núcleo 18 blocos gravados com versos em letras douradas traduzidos para diversos idiomas. A exposição gratuita permanece em cartaz na capital paulista até o dia 25 de outubro, integrando uma itinerância nacional que já passou pelo Instituto Inhotim, em Minas Gerais.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
