Os pinguins-de-humboldt são reconhecidos por sua resistência histórica, tendo se adaptado ao longo dos séculos a ciclos de escassez e abundância determinados pela presença ou ausência do fenômeno climático El Niño. A cada dois a sete anos, o aquecimento das águas trazido pelo fenômeno no oceano afugenta os peixes de águas frias, base da alimentação dessas aves marinhas.
A bióloga Susana Cárdenas-Alayza, diretora do programa de conservação de Punta San Juan, relatou cenário desolador ao verificar a colônia peruana. O local, que já abrigou uma das maiores colônias reprodutivas da espécie no mundo, agora conta com apenas quatro pinguins em meio a um cemitério de quase duzentos ninhos vazios.
A situação é agravada pelo acúmulo de crises recentes. Nos últimos anos, a população sofreu um golpe duplo com a gripe aviária de 2022 e um El Niño severo em 2023, restando apenas algumas centenas de indivíduos antes de o atual fenômeno — potencialmente o mais forte já registrado — atingir a região costeira.
Com a escassez de alimentos e a necessidade de buscar peixes em áreas mais distantes, os pais pinguins acabam abandonando os ovos e os filhotes famintos. Pesquisadores apontam que adultos muitas vezes não retornam aos ninhos e optam por se estabelecer mais próximos a regiões com maior oferta de cardumes.
Especialistas como o ecólogo Carlos Zavalaga alertam que a presença de carcaças de pinguins ao longo do litoral peruano confirma a intensidade extrema do fenômeno climático atual. Além disso, a alta rotatividade política no Peru e a proximidade entre o sistema político e indústrias pesqueiras dificultam a implementação de medidas de conservação de longo prazo.
Apesar da capacidade impressionante de adaptação e mergulho dos pinguins-de-humboldt, cientistas ressaltam que a recuperação populacional exige tempo e proteção rigorosa dos habitats. Conservacionistas defendem a ampliação de áreas marinhas protegidas e a redução da extração de guano para que os locais de reprodução permaneçam atraentes para as aves no futuro.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
