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‘As Troianas’ liga tragédia grega a presídio feminino da ditadura

Nova montagem do Núcleo Experimental dirigida por Zé Henrique de Paula adapta a tragédia de Eurípides para o contexto da ditadura militar brasileira em 1972.

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‘As Troianas’ liga tragédia grega a presídio feminino da ditadura

Para comemorar duas décadas de trajetória artística, o Núcleo Experimental propõe um mergulho em um tema conhecido, mas sob uma perspectiva totalmente inovadora. Em ‘As Troianas – Música nas Trevas’, o diretor Zé Henrique de Paula transporta a célebre tragédia grega de Eurípides para o ano de 1972, período mais intenso da repressão imposta pela ditadura militar no Brasil, situando a trama na Torre das Donzelas, a ala feminina do Presídio Tiradentes.

O ponto de partida para essa encenação veio de um acontecimento real documentado pela jornalista Luiza Villaméa. Na época, presas políticas confinadas pelo regime autoritário montaram um espetáculo clandestino entre as celas como estratégia de resistência cotidiana. Na adaptação teatral, a derrocada de Tróia e a violência exercidas pelo Estado convergem, fazendo com que figuras como Hécuba, Cassandra e Andrômaca emprestem suas vozes a mulheres submetidas a interrogatórios, humilhações e torturas.

A encenação ocupa uma pequena sala na Barra Funda, com capacidade restrita a apenas 65 lugares, colocando o público a distâncias mínimas do elenco. A escolha espacial reforça o caráter claustrofóbico da experiência, com a matéria bruta do cenário eliminando qualquer distanciamento entre quem assiste e quem atua no espetáculo.

A dinâmica do espetáculo intercala texto falado e composições musicais assinadas por Fernanda Maia, inspiradas na música de protesto latino-americana das décadas de 1960 e 1970. A formação instrumental — que reúne bohème, viola sinfônica, piano, contrabaixo e bateria — e a emissão vocal mais sutil evitam o pastiche nostálgico, conferindo uma sonoridade contemporânea à montagem.

A direção aposta em uma condução sóbria e contida para o elenco, optando pela reflexão em detrimento do melodrama e do choque explícito. Essa escolha narrativa resgata a memória histórica com seriedade, dando margem para que o público absorva a densidade do texto em um ambiente intimista e rigoroso.

As apresentações de ‘As Troianas – Música nas Trevas’ ocorrem no Teatro do Núcleo Experimental, localizado na rua Barra Funda, zona oeste de São Paulo, com sessões às terças e quartas-feiras até o dia 7 de outubro, com duração de 95 minutos e classificação indicativa de 12 anos.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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