Escalada sem proteções, a vida na ponta dos dedos – 03/12/2025 – É Logo Ali
Quem olha de longe segura a respiração, agoniado. Um homem sobe pelas paredes mais ariscas do Brasil, aquelas que exigiriam muito de qualquer escalador experiente e equipado com metros de cordas e quilos de mosquetões, usando nada além de suas mãos, pés, um saquinho de magnésio e uma disciplina treinada ao longo de anos em artes marciais. Esse homem é o paulistano Anderson Lima, 43, criador do projeto Free Solo Brasil. Ele se dedica a colecionar conquistas como a subida pela via chamada K2 no Corcovado, no Rio de Janeiro, com 150 metros, em espantosos 12 minutos e 43 segundos. Ou a primeira escalada livre da Chaminé Gallotti, uma das vias mais difíceis do Brasil, na face sul do Pão de Açúcar, com 280 metros de extensão e um histórico que inclui, entre outras curiosidades, o achado de um corpo mumificado —e nunca identificado— de um homem em 1952.
Lima conta que começou a escalar bem mais tarde que o habitual entre montanhistas, depois dos 30 anos. Enfermeiro de profissão e com uma escala típica da profissão, ele não encontrava parceiros que pudessem acompanhá-lo às montanhas em dias de semana. Começou, então, a escalar por conta própria, ainda usando cordas, mosquetões e tudo o que mandam os manuais do montanhismo tradicional.
“Comecei a ir para as montanhas de Teresópolis, principalmente sozinho”, conta ele à Folha. “E, durante as escaladas solitárias, comecei a fazer alguns movimentos sem a segurança que deveria ter, mas percebendo que eu tinha uma capacidade de concentração muito grande”.
Da constatação de que podia, como diz, “mudar a chave e começar a fazer alguns trechos sem as cordas”, veio a certeza de que podia fazer aquilo para valer, de cabo a rabo. “O montanhismo é a minha religião, com a meditação e a experiência eu fui aumentando minha performance naquilo que não é meramente um esporte, mas um estilo de vida”, filosofa.
Ao longo de dez anos, Lima escalou sem registrar suas subidas. “Geralmente, quem faz free solo não mostra isso, é um momento muito particular entre você e a montanha”, diz. Mas, em 2021, um amigo insistiu para que mostrasse sua técnica ao mundo. Nascia assim o embrião do canal Free Solo Brasil.
À pergunta inevitável sobre como e por que enfrenta o medo da morte sempre tão próxima, Lima responde que, como enfermeiro de emergência em cardiologia, viu muita gente morrer. “A maioria das pessoas que vi morrer acreditavam que estavam em segurança e simplesmente a morte aconteceu, talvez isso me tenha deixado um pouco desapegado”, diz. E acrescenta: “Eu entendo muito bem que minha hora vai chegar a qualquer momento, como a de todo mundo, mas quando chegar minha vez, quero estar lá, na montanha”.
A preparação de Lima para cada escalada livre começa com uma forte rotina de exercícios de musculação, treinamento de artes marciais, e não raro uma dieta restrita. “Meu biotipo não é muito favorável para a escalada, sou muito grande, quase todos os escaladores são miúdos, já participei de competições em que meu adversário pesava 50 quilos e eu peso 80!”, conta, divertido.
Lima, que prepara o lançamento de seu livro “Entre o Medo e a Montanha”, comemora agora a conquista que define como “a escalada mais difícil” de sua trajetória, na via (ou rota de escalada na pedra, no jargão do montanhismo) Cruz Credo da Pedreira do Dib, na cidade paulista de Mairiporã. A via tem 80 metros de altura e diferentes graus de dificuldade que incluem trechos negativos —quando o escalador fica literalmente pendurado da pedra que se projeta horizontalmente sobre sua cabeça e precisa passar para o lado de cima usando a força dos braços, como na foto que acompanha este texto. Mas ele já se prepara para mais um grande desafio: a via Soma de Todos os Medos, uma parede de 810 metros de altura na montanha Cantagalo, localizada no distrito de Itaipava, na cidade de Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. Sua inspiração?
“Na verdade são dois escaladores”, afirma. “O americano Alex Honnold, um dos primeiros a registrar em imagens escalada free solo, e o francês Alain Robert, que atualmente só escala altos prédios, ambos são pessoas que admiro muito”, resume.
Finalizando a conversa, Lima faz um alerta: “Quando se vai divulgar o free solo para outras pessoas, é importante entender que é uma decisão estritamente pessoal, é algo que nunca deve ser feito para desafiar alguém ou quebrar recordes, é uma conversa muito íntima profunda de cada um com a montanha, e cada escalador tem seu motivo pessoal para fazê-lo. E esse motivo tem que ser tão grandioso que valha a própria vida”.
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