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Pesquisa sobre câncer premiada com Nobel de Medicina há cem anos acabou refutada

Estudo do dinamarquês Johannes Fibiger levou o Nobel de Medicina em 1926, mas conclusões foram totalmente refutadas décadas depois.

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Pesquisa sobre câncer premiada com Nobel de Medicina há cem anos acabou refutada

Há exatamente cem anos, uma pesquisa agraciada com o prestigioso Prêmio Nobel de Medicina tornou-se uma das mais controversas da história da ciência. Após receber a láurea, o trabalho desenvolvido pelo cientista dinamarquês Johannes Fibiger passou a ser alvo de profundos questionamentos, culminando na descoberta de que suas conclusões centrais estavam incorretas. Apesar disso, especialistas avaliam que a investigação representou um marco relevante para a compreensão inicial da oncologia moderna.

Em seus experimentos conduzidos nas primeiras décadas do século XX, Fibiger identificou tumores no estômago de ratos e encontrou vermes nematódeos, aos quais denominou Spiroptera neoplastica. O pesquisador formulou a tese de que o câncer investigado era induzido por substâncias tóxicas secretadas por esses parasitas. A observação baseava-se na transmissão por hospedeiros intermediários, como baratas infectadas, e na verificação de lesões inflamatórias e papilomas nos animais estudados.

No entanto, investigações posteriores publicadas nas décadas de 1930 e 1950 demonstraram cabalmente que as lesões observadas pelo dinamarquês não correspondiam a neoplasias malignas. Tratava-se, na verdade, de metaplasias e hiperplasias benignas provocadas pela associação entre a irritação mecânica gerada pelos vermes e uma grave deficiência de vitamina A na dieta à base de pão e água fornecida aos ratos de laboratório.

Com a derrocada da teoria original, muitos cientistas passaram a questionar a legitimidade da premiação recebida por Fibiger, que faleceu em janeiro de 1928 sem ter a oportunidade de se defender das contestações. Contudo, pesquisadores contemporâneos ponderam que o equívoco metodológico não anula a importância histórica do achado para a consolidação de novas frentes de estudo na medicina.

Ana Paula Lepique, professora do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), destaca que, embora o resultado estivesse errado, o trabalho introduziu o conceito pioneiro de que um ambiente tecidual irritante pode favorecer o surgimento de tumores. A especialista aponta que existem parasitas capazes de induzir malignidades em seres humanos na atualidade, como o Schistosoma e o Opisthorchis viverrini, cujas infecções geram inflamações crônicas reconhecidas como fatores de risco.

Por fim, as limitações tecnológicas e estruturais da época explicam por que o estudo carecia dos rigorosos critérios de causalidade e controle exigidos pela ciência moderna. Sem biotérios controlados e trabalhando com roedores selvagens, Fibiger baseou-se estritamente na observação empírica. O legado de seu experimento reside em ter aberto caminho para que gerações futuras investigassem com precisão os verdadeiros fatores etiológicos do câncer.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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