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Onde foi parar a festa da democracia?

Colunista analisa como o clima de festividade nas eleições deu lugar à apreensão, incerteza sobre resultados e ao dilema do voto no mal menor.

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Onde foi parar a festa da democracia?

Não muito tempo atrás, o dia da eleição no Brasil era frequentemente descrito com um tom festivo e de celebração cívica. Embora houvesse profundas divergências entre os cidadãos, as opiniões contrárias eram encaradas como escolhas distintas de governo, e não como ameaças existenciais à integridade do país. Estava implícito no pacto democrático que o lado derrotado aceitaria o veredicto das urnas, cumprimentaria o vitorioso e assumiria de forma pacífica o papel de oposição no cenário político.

Essa atmosfera de comemoração trazia consigo o peso histórico da retomada do direito de escolher livremente os dirigentes da nação, após um longo hiato de mais de vinte anos imposto pelo regime da ditadura militar. A possibilidade de ir às urnas representava uma conquista inestimável que unia a sociedade em torno do processo de escolha dos representantes públicos e da consolidação das instituições republicanas.

Contudo, o cenário político contemporâneo passou por profundas transformações estruturais. Atualmente, a sociedade já não pode contar com a certeza de que o candidato derrotado aceitará de maneira graciosa e imediata o resultado consagrado pelo voto popular. Mesmo deixando de lado os cenários mais extremos de rupturas institucionais, tornou-se recorrente que o perdedor questione a lisura do pleito e recorra a estratégias prolongadas de judicialização.

Essa nova realidade gera forte preocupação, pois sinaliza um momento em que a democracia pode falhar em entregar o seu produto mais essencial: a transferência pacífica e não violenta do poder entre diferentes correntes políticas. O clima observado em dias de votação recente tende a ser de evidente consternação e apreensão, afastando o antigo sentimento de festa cívica e substituindo-o por tensionamentos constantes.

Diante desse panorama, eleitores que não se identificam de forma entusiástica com os principais postulantes ao cargo enfrentam um dilema complexo. Sem alternativas que despertem forte empatia positiva, resta a muitos o exercício de selecionar o que consideram ser o mal menor. Filósofos e pensadores divergem sobre a validade moral de se curvar sistematicamente à lógica do mal menor, mas analistas práticos ponderam que a recusa em escolher não elimina os dilemas reais impostos pelo processo decisório.

Mesmo que o clima festivo tenha dado lugar à cautela e à reflexão crítica, o ato simples de comparecer às urnas e exercer o direito de voto mantém um significado profundamente positivo. A preservação do sufrágio e da participação popular continua sendo o pilar fundamental sobre o qual se sustenta a estabilidade institucional e a continuidade do regime democrático brasileiro.

Fonte: redir.folha.com.br

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