Por que baleias têm sido vistas fora da época no litoral norte de SP: ‘Uma novidade. Estão por aí’
Descubra as ilhas de São Sebastião
Locais oferecem opções de mergulho e belezas naturais.
A temporada de passagem das baleias-jubarte pelo litoral norte de São Paulo acontece, tradicionalmente, entre os meses de maio e agosto. Mas, neste ano, a presença dos cetáceos continua sendo registrada no canal de São Sebastião, mesmo após o encerramento da temporada.
A estimativa é de que entre cinco e seis baleias, que estão sendo monitoradas por pesquisadores desde junho, possam permanecer na região ainda durante os próximos meses – um comportamento que é raro.
Segundo o fundador do Projeto Baleia à Vista, Júlio Cardoso, trata-se de baleias-jubarte jovens, possivelmente recém-desmamadas. Ao encontrar alimento naquela área, elas não fizeram a migração habitual.
“Quando ela desmama, tem de procurar comida por conta própria. Se tem a sorte de estar numa região que tem comida, opa! Se não tem, vai acompanhar a tropa. Por isso estão ficando por aqui”, afirmou Cardoso ao Estadão.
Na região, segundo Cardoso, elas têm encontrado em abundância um tipo de camarão pequeno como o krill, que habita o assoalho do mar. A evidência disso é que as jubartes sobem à superfície cheias de lama depois de se alimentar.

Projeto registrou jubartes jovens em São Sebastião Foto: Divulgação/Prefeitura de São Sebastião
Pesquisadores estão acompanhando o grupo e analisam o novo fenômeno, sem saber ainda se isso pode se repetir. Com a chegada do verão e o aumento no fluxo de embarcações, a preocupação é com o risco de choque, principalmente entre os animais e navios de cruzeiro.
“É uma novidade, elas estão por aí. Em todos esses anos, o pessoal vinha no verão e não tinha baleia. Agora tem”, afirma o fundador do Baleia à Vista.
Em parceria com outras instituições, como o Instituo Baleia Jubarte, foi emitido um alerta ao tráfego marinho que recomenda a “todos os navios que entrem ou saiam do Canal de São Sebastião/Ilhabela limitem a velocidade a 5 nós (cerca de 9 km/h) e mantenham um vigia para baleias ao navegar em águas com menos de 30 metros de profundidade nas proximidades”. Além disso, é recomendado chegar durante o dia, sempre que possível.

Mapa de área de maior risco para embarcações de colisão com jubartes na região de Ilhabela Foto: Reprodução/Instituto Baleia Jubarte
Para outras embarcações, a prefeitura de São Sebastião recomenda que, ao avistar uma baleia, se reduza a velocidade e pare a uma distância de pelo menos 100 metros, deixando-o desengatado sem desligar.
De acordo com o projeto, que monitora desde 2004 a movimentação dos mamíferos em São Sebastião e Ilhabela, a temporada de 2025 foi recorde em número de avistamentos – 800 até o início de dezembro.
Fome na Antártida?
Segundo o biólogo marinho Pedro Fróes, os registros de permanência mais longa das jubartes na costa brasileira, como ocorre em São Sebastião, são “raríssimos“. Mas isso se deve também à dificuldade de se manter um monitoramento permanente em toda a extensão do litoral.
Pesquisador do Projeto Baleia Jubarte e do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha (ECoMAR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele explica que, no atual estágio ecológico da espécie, em que houve aumento populacional, é provável que algumas dinâmicas comportamentais se alterem.

O mais recente censo do Projeto Baleia Jubarte registrou 30 mil indivíduos na costa brasileira. Essa quantidade é comparável aos níveis pré-caça, há aproximadamente 200 anos. No início do projeto, em 1988, cerca de mil animais foram contabilizados.
Outro fator que pode estar impactando seu comportamento são as mudanças climáticas. “Podem influenciar essa adaptação da dinâmica migratória das jubartes, já que o estoque de krill não está acompanhando o crescimento da espécie”, destaca Fróes.
Um estudo sobre os impactos da mudança do clima no comportamento e dinâmica populacional do krill (tipos de pequenos crustáceos), publicado na revista científica Nature em 2023, mostra que o aquecimento do oceano e a redução do gelo marinho têm afetado a distribuição latitudinal e longitudinal desses crustáceos.
O krill é a base da alimentação dessas baleias e também de outros animais, como pinguins e focas. Segundo hipóteses de cientistas e observadores, deve haver maior disputa pelo krill na Antártida, e já se sabe que baleias-jubarte mais jovens saem primeiro do círculo polar para iniciar a migração.
Baleias menores costumam chegar a partir de maio no Brasil, e as maiores só em meados de junho.
“Isso pode ser reflexo de competição por comida. As maiores ficam mais tempo porque conseguem se alimentar mais, dando menos espaço para as menores”, diz Fróes.
As jubarte brasileiras se alimentam na Antártida, no entorno das Ilhas Sandwich e Geórgia do Sul, durante o verão. Costumam consumir o máximo de krill possível nesses locais para migrar no inverno, período em que atingem a costa do País.
A migração tem a função de acasalamento e nascimento dos filhotes, aproveitando as águas mais quentes para o ciclo reprodutivo.
Para Fróes, a permanência delas levanta algumas possibilidades:
- Em uma 1ª hipótese de competição por alimento na Antártida, as menores – menos favorecidas na disputa – podem ficar mais tempo na costa para repor o “estoque” sem disputar com animais maiores;
- Numa 2ª hipótese, por serem jovens, ainda não aprenderam o momento ideal de partir para a migração;
- A 3ª possibilidade é que tenha sido um comportamento pontual e ao acaso.
Além das mudanças climáticas, a sobrepesca do krill na Antártida ameaça a recuperação das jubartes. Eles são altamente demandados para a criação do salmão, ao qual servem de ração, e em suplementos como o óleo de krill, rico em ômega-3.
Neste ano, cientistas e organizações ambientalistas pediram uma moratória global na captura do krill antártico. A pesca foi encerrada antecipadamente pela primeira vez, em maio de 2025, após atingir em apenas cinco meses a cota anual de 620 mil toneladas.


