O Festival do Rio iniciou sua programação com uma homenagem marcante ao cineasta e ativista alemão Rosa von Praunheim, falecido em dezembro. A mostra especial, realizada em parceria com o Goethe-Institut, traz sete obras fundamentais do diretor que se notabilizou por colocar a vivência LGBTQIA+ nas telas em um período em que o tema era marginalizado ou intolerado.
O destaque da abertura, ocorrida nesta terça-feira, foi o manifesto político em formato cinematográfico intitulado ‘Não É o Homossexual que É Perverso, Mas a Situação em que Ele Vive’. Lançado em 1971, o filme funciona mais como um registro histórico do que como uma obra de arte tradicional, utilizando-se de um falso documentário para expor e desconstruir os estereótipos dos homossexuais em Berlim naquele período.
Durante o debate posterior à sessão, o educador e crítico cultural Guilherme Terreri, conhecido artisticamente como a drag queen Rita von Hunty, destacou a importância da obra ao entregar ao público o debate daquele contexto histórico, conectando-o diretamente aos desdobramentos iniciados após a revolta de Stonewall e aos movimentos de resistência à ditadura no Brasil.
Von Hunty ressaltou que a produção alemã documentou de forma sensível a organização inicial da comunidade em prol de direitos coletivos, permitindo que o grupo passasse a ser reconhecido como categoria social e reivindicasse sua existência para além de rótulos estigmatizados como pecado, doença, crime ou abjeção.
A estrutura do filme de Von Praunheim incomoda propositalmente em sua primeira parte ao adotar um tom de julgamento, simulando a opressão social vigente antes de desmoralizá-la. A mensagem final da obra incentiva a união e a saída do armário, instando os gays ao redor do mundo a abandonarem o isolamento e a ocuparem as ruas para fortalecerem a luta coletiva.
Além de seu trabalho mais famoso, a retrospectiva em cartaz no Festival do Rio exibe títulos de peso como ‘O Einstein do Sexo’, que retrata a trajetória do pioneiro Magnus Hirschfeld perseguido pelo nazismo, e ‘Amor Bruto’, focado nas raízes da violência. A seleção de filmes também inclui ‘Sobrevivendo em Nova York’, ‘A Bettwurst’, ‘Cidade das Almas Perdidas’ e ‘Minhas Mães – Em Busca de Rastros em Riga’.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
