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Quem decide quanto vale o trabalho

A distância entre o salário mínimo pago e o custo de vida reflete decisões privadas sobre quanto vale o trabalho e quem fica com a diferença da riqueza produzida.

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Quem decide quanto vale o trabalho

Um trabalhador que recebe o salário mínimo no Brasil ganha atualmente R$ 1.621. Para sustentar uma família de quatro pessoas com alimentação, moradia, saúde, educação e transporte, o Dieese calculou que esse piso precisaria ser de R$ 7.999 em maio de 2026, quase cinco vezes mais. A distância entre o que se paga e o que custa viver não é acidente de mercado, mas o resultado de decisões sobre quanto vale o trabalho, quem fixa esse valor e quem fica com a diferença entre o que se produz e o que se recebe.

Essa questão organiza o debate sobre a desigualdade no Brasil e no mundo. A resposta traz uma consequência incômoda para quem enxerga o problema apenas como uma questão de renda: a desigualdade não se reduz somente com a transferência de dinheiro. Ela depende de levar a democracia para o terreno que hoje permanece fora dela, abrangendo a propriedade dos meios de produção, a jornada de trabalho, o financiamento público, a tributação da riqueza e a forma concreta como o trabalho é organizado.

Dados recentes do IBGE mostram um país que melhorou na base, mas quase não mudou no topo. A pobreza caiu de 27,3% da população em 2023 para 23,1% em 2024, e o índice de Gini chegou a 0,504, o menor da série iniciada em 2012. Contudo, esse avanço depende fortemente de políticas públicas e programas sociais, sem os quais a pobreza subiria para 28,7%. O aquecimento do mercado de trabalho ajudou, mas a queda continua frágil por se apoiar em transferências que podem ser alteradas.

No topo da pirâmide, a concentração permanece quase intacta. O World Inequality Lab estima que os 10% mais ricos capturam perto de 60% da renda nacional brasileira antes de impostos, mantendo o país entre os mais desiguais do mundo. Reduzir a pobreza na base não tocou na estrutura de apropriação do topo, configurando dois movimentos paralelos que não se encontram: um pouco mais de renda para os mais pobres e nenhuma alteração no controle da riqueza produzida.

O núcleo do problema reside no próprio trabalho. A informalidade atingiu 38,1% dos ocupados em 2025, conforme a PNAD Contínua, e a nova precariedade é comandada por algoritmos. O IBGE registrou 1,7 milhão de pessoas tendo aplicativos como trabalho principal em 2024, com taxa de informalidade de 71,1% nesse grupo. Entre os motoristas, 91,2% afirmam que o preço da corrida é definido pela plataforma, enquanto cerca de 30% relatam ameaças de bloqueio, evidenciando a ausência de direitos trabalhistas básicos.

A desigualdade também reflete recortes de gênero e raça. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras correspondeu a 46,5% do dos homens brancos, proporção estagnada ao longo dos anos. Embora o STF tenha confirmado por unanimidade a constitucionalidade da Lei de Igualdade Salarial em maio de 2026, a norma atua sobre disparidades que nascem antes, na divisão do trabalho e no acesso desigual aos postos formais.

Fonte: www.campograndenews.com.br

Escrito por

Jeder Fabiano