As tradicionais campanhas do Outubro Rosa costumam concentrar seus esforços na divulgação de informações essenciais sobre prevenção, diagnóstico precoce e tratamento do câncer de mama. No entanto, existe uma vertente menos debatida desse processo: o impacto psicológico que surge quando a terapia chega ao fim e o medo de que a doença possa retornar passa a assombrar muitas mulheres.
Segundo a psicóloga clínica Laís Mutuberria Vieira, enquanto familiares e amigos celebram a remissão e aguardam o retorno à normalidade, a paciente frequentemente continua lidando com angústias e transformações profundas que persistem após o término das intervenções médicas. Durante meses, a rotina foi ditada por idas a hospitais, médicos e exames constantes, criando uma rede de suporte que diminui consideravelmente com o encerramento da quimioterapia e da radioterapia.
A especialista destaca que, assim como o acompanhamento clínico deve prosseguir, a assistência emocional também se faz necessária para respeitar o tempo de cada mulher na reconstrução de sua confiança. Muitas pacientes vivenciam o afastamento gradual de conhecidos e amigos que retomam suas vidas normais, o que pode intensificar a sensação de solidão e o temor de uma recidiva diante de qualquer nova dor ou alteração corporal.
As transformações físicas decorrentes do tratamento — como cicatrizes, perda ou alteração das mamas, fadiga crônica provocada por medicações de uso prolongado por até cinco anos, além de reflexos na sexualidade e na autoestima — alteram a forma como a mulher se reconhece. A médica mastologista e radiologista Renata Reis Pinto, do Instituto Nacional de Câncer (Inca), reforça que o câncer de mama ainda carrega forte estigma social, sendo frequentemente visto como uma sentença de morte, o que torna imperativo um atendimento multidisciplinar com suporte psico-oncológico e social.
Um exemplo dessa realidade é o relato de Josiane Fernandes, diagnosticada no início de 2025. Após enfrentar um ano e três meses de cirurgia, quimioterapia e imunoterapia, ela aponta que o pânico ainda se manifesta durante exames de rotina. Para Josiane, embora exista vida após o câncer, essa fase exige uma reconstrução cuidadosa e apoio contínuo no pós-tratamento.
Conforme as estimativas do Inca para o triênio de 2026 a 2028, o tumor de mama continua sendo o mais incidente entre o público feminino no Brasil, projetando dezenas de milhares de novos casos anuais. O cenário reforça que a atenção à saúde da mulher deve ir muito além da cura clínica, abraçando também as sequelas emocionais que ecoam muito tempo depois da última sessão terapêutica.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
