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Esse foi o ano em que a IA começou a servir de justificativa para muitas demissões

Esse foi o ano em que a IA começou a servir de justificativa para muitas demissões

Quando o ChatGPT foi lançado, em 2022, muita gente que se sentia imune à automação ficou com medo de perder seu emprego. Nos dois anos seguintes, cresceu a ideia de que a inteligência artificial não substituiria profissionais, e sim os tornaria mais produtivos. Agora que chegamos ao fim de 2025, vimos essa tecnologia justificando ondas de demissões.

Eu mesmo defendo que o melhor que a IA pode oferecer para o mercado é aumentar as receitas das empresas tornando os profissionais mais eficientes. Mas não posso tapar os olhos diante de centenas de milhares de pessoas que já foram substituídas por robôs no mundo.

É verdade que a IA virou um bode expiatório em parte desses cortes. Basta ver que a área de TI foi a que mais trocou pessoas por robôs, um setor que já vinha demitindo massivamente. É onde os profissionais mais insistem no trabalho remoto, enquanto algumas de suas principais lideranças ameaçam quem não voltar aos escritórios. A IA pode estar justificando cortes dos “subversivos”, sob alegação de baixa produtividade.

Vale lembrar que, em meados de 2023, em um evento de tecnologia nos EUA, perguntei ao CEO global de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo se a IA ameaçaria as equipes de TI. E ele argumentou que aconteceria o contrário, pois a IA tornaria os profissionais sêniores ainda melhores, enquanto facilitaria a entrada dos juniores.

Mas outra realidade de 2025 é a de que a maioria das demissões acontece entre quem está começando sua carreira, e não só em TI. Aquela previsão falhou nos dois grupos, pois os mais experientes, em vez de melhorarem suas entregas, tornaram-se “pilotos de IA” para dar conta das tarefas que os novatos deixaram de fazer.

A requalificação ganhou destaque em 2025, especialmente para quem não tem curso superior. Eles têm mais risco de perder o emprego, e infelizmente muitas novas habilidades exigidas não são aprendidas em poucas semanas. Assim, as demissões acontecem mais rapidamente que as capacitações, que muitas vezes não chegam a quem mais precisa e começam a ser vistas como uma fajuta “narrativa tranquilizadora”.

Começamos a observar também um “burnout digital”, pois os profissionais humanos agora só lidam com o que a IA não consegue resolver, ou seja, problemas complexos e estressantes, sem os “respiros” naturais de tarefas rotineiras, agora a cargo das máquinas. Mas o cérebro não foi feito para sequências de oito horas de alta intensidade cognitiva, ainda mais tendo algoritmos que rastreiam, avaliam e decidem sobre as pessoas, como “chefes invisíveis”.

Também nos reconfortamos ao dizer que habilidades essencialmente humanas, como ética, empatia, julgamento moral, negociação de alto nível, garantirão nossos empregos. Isso é verdade, mas o mercado ainda não sabe precificar isso. Ainda pagamos por “entregáveis” e não por “julgamentos”. Logo, se isso for mesmo funcionar como uma garantia profissional, precisamos valorizar mais nossa humanidade.

Nesses anos, temos repetido que “a IA não tirará nosso emprego, mas uma pessoa usando IA fará isso”. Lamentavelmente, essa frase envelheceu mal, pois a “pessoa usando IA” substituiu não um, mas muitos profissionais. A matemática da eficiência corporativa é implacável.

Para piorar, as empresas ainda estão cortando os degraus iniciais da carreira. Dessa forma, não haverá meios para os jovens evoluírem profissionalmente.

Não há dúvida de que a IA tornará os negócios cada vez mais eficientes. Esse é um caminho bem-vindo e sem volta. Mas a busca por uma eficiência máxima e inconsequente está criando muitas fragilidades sociais. Empresas magras demais podem gerar uma sociedade doente.

Se a IA venceu em 2025, precisamos garantir que a humanidade não perca por WO em 2026.


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