Quem é Olga Obry, judia ucraniana que foi a 1ª biógrafa de imperatriz do Brasil
Imagens inéditas revelam exumação da Família Imperial brasileira
Arqueóloga trabalhou sete meses sob sigilo na cripta do Ipiranga e descobriu detalhes desconhecidos da biografia dos imperadores. Reportagem do “Estado” acompanha a pesquisa desde 2010. Crédito: TV Estadão | 18.02.2013
Na terceira edição de sua biografia sobre a imperatriz Leopoldina (1797-1826), lançada recentemente, o pesquisador e escritor Paulo Rezzutti atenta para uma personagem esquecida da história da intelectualidade brasileira do século 20: Olga Obry.
No prefácio do livro D. Leopoldina: A história não contada: A mulher que arquitetou a independência do Brasil, Rezzutti cita que nos últimos anos se deparou com um livro em alemão chamado Grüner Purpur: Brasiliens erste Kaiserin, Erzherzogin Leopoldine — e ali está a fonte de muitas das informações conhecidas a respeito daquela que seria a primeira mulher de dom Pedro 1º (1798-1934), primeira imperatriz do Brasil independente.
Olga Obry publicaria sua obra em Viena, em 1958. “A obra de Obry foi a porta de entrada para a infância que eu procurava, mas também me revelou uma autora surpreendente”, afirma o pesquisador, no prefácio.

Retrato de Olga Obry: 1ª biógrafa da imperatriz Leopoldina veio para o Brasil depois de passar um tempo em um campo de concentração. Foto: Acervo Paulo Rezzutti
Judia, nascida em Kiev em 1899, Obry mudou-se para o Brasil em 1941, fugindo do nazismo que perseguia seu povo na Europa de então. No País, ela atuou como jornalista, tradutora e escritora e se envolveu na fundação da Escola Nacional de Teatro.
Voltou ao Velho Mundo na década de 1950. “Na Viena do pós-guerra”, situa Rezzutti, “debruçou-se sobre a vida de dona Leopoldina e escreveu um perfil psicológico sobre a primeira imperatriz brasileira”.
“Obry utilizou-se de uma gama variada de cartas e documentos que, até os dias de hoje, permaneciam parcialmente inéditos”, conta o biógrafo.

Imperatriz Leopoldina (1797-1826) foi a primeira mulher de dom Pedro 1º (1798-1934). Foto: Domínio Público
Um livro “esquecido”
Grüner Purpur jamais ganharia uma tradução para o português. Ao Estado, Paulo Rezzutti comenta que a rica obra da escritora ficou restrita a pequenos círculos germanófilos. Ele acredita que um dos motivos do apagamento da autora tenha sido uma “crítica devastadora da obra feita por Carlos H. Oberaker Jr., publicada em 9 de junho de 1960 no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo”, conforme escreve no prefácio de sua biografia.
“Oberacker desancou o livro de Obry apontando falhas terríveis no que tangia a detalhes da história brasileira”, comenta ele. “Quinze anos depois, ele lançaria o seu próprio livro a respeito da primeira imperatriz brasileira, tão calada e esquecida na época quanto sua primeira biógrafa.”

Capa do livro de Olga Obry: obra em alemão que jamais ganhou tradução para o português. Foto: Acervo Paulo Rezzutti
O livro do escritor gaúcho de ascendência alemã saiu em 1973 sob o título A Imperatriz Leopoldina – Sua Vida e Sua Época. Um catatau de mais de 500 páginas.
Diversos fatores sócio-históricos parecem explicar o apagamento de Obry, conforme acreditam os pesquisadores. Eles concordam que o fato de ela ser mulher em mundo dominado por intelectuais masculinos deve ter sido o principal ponto. Mas também deve ter pesado o fato de ela ser estrangeira, judia e ter escrito em uma língua que não facilitava a circulação dentre os pesquisadores brasileiros daquela época.
A pesquisadora luso-brasileira Cláudia Thomé Witte valoriza os méritos de Obry no trabalho de pesquisa a respeito de quem foi Leopoldina. Isto porque não só ela teve acesso às centenas de cartas enviadas pela imperatriz do Brasil a sua família — principalmente ao pai, o imperador austríaco Francisco 1º (1768-1835), e à irmã, imperatriz consorte da França, Maria Luísa (1791-1847) — como se deu ao trabalho de traduzir os textos, escritos em um sistema de escrita germânico antigo, o sütterlin, para o alemão contemporâneo.
Foi o que abriu as portas desse material para pesquisas atuais.
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De acordo com Witte, esse tipo de escrita havia sido banido do mundo germanófono com a ascensão do nazismo. Como Obry aprendeu alemão antes disso, ela dominava o formato. “É um alemão arcaico, um material dificílimo de trabalhar”, reconhece a pesquisadora.
Como Oberacker foi um dos poucos brasileiros que teve acesso ao conteúdo do livro de Obry — a ponto de resenhá-la — o fato de ele ter criticado de forma contundente o trabalho e, anos depois, ter se apropriado de parte considerável do trabalho da escritora para seu próprio livro faz com que os pesquisadores contemporâneos o responsabilizem também pelo apagamento da autora.
Witte conta que cotejou as transcrições das cartas de Leopoldina que aparecem no livro de Obry e são as mesmas utilizadas por Oberacker em seu livro publicado nos anos 1970. Isso indica que ele não sabia ler em sütterlin ou mesmo que não tenha tido acesso ao material original, arquivado em instituições austríacas.
E o historiador não credita à Obry o achado.
“Ele cita de cabo a rabo a pesquisa da Olga”, pontua Rezzutti.

Reprodução de cartão postal mostra Leopoldina com seus filhos; ela foi a primeira imperatriz do Brasil independente. Foto: Reprodução
Para Witte, é preciso reconhecer que Oberacker teve o mérito de trazer à luz a biografia de Leopoldina em um momento, época das comemorações do sesquicentenário da Independência, em que apenas a figura de Pedro 1º era incensada. “Por outro lado, estudando seu livro e o livro da Olga Obry, é muito gritante que praticamente tudo o que esteja transcrito em um esteja transcrito em primeira mão por ela”, aponta. “É espantoso.”
Segundo a pesquisadora, cerca de um quarto do livro de Oberacker é a reprodução do que havia escrito Obry.
Além disso, Witte exalta as qualidades literárias de Olga Obry. “Ela faz reflexões muito inteligentes ao longo do livro, com uma análise psicológica interessante sobre a Leopoldina, sobre o que ela enfrenta e o que ela encontra no Brasil”, afirma.
“É uma pena não termos este livro traduzido para o português. Seria um complemento muito rico às informações que temos acesso”, diz ela.
Fuga do nazismo e paixão pelo Brasil
A vinda de Olga Obry para o Brasil ocorreu depois que ela e o marido foram presos em Paris — o primeiro destino do casal na fuga do nazismo. Depois de passarem um tempo em um campo de concentração, eles conseguiram ser libertados e, em seguida, obtiveram um visto para embarcar à América do Sul.
Ela era filha de industriais e tinha uma vida financeira confortável, conforme conta o pesquisador Rezzutti.
Em pesquisas acadêmicas — inclusive seu doutorado, defendido na Universidade de São Paulo — a historiadora Carol Colffield estudou a trajetória de Obry e de seu companheiro, o médico e escritor Ricahrd Lewinsohn.
Ela esclarece que a vinda deles ao Brasil foi possível graças a um visto diplomático concedido pelo diplomata Luiz Martins de Souza Dantas, que servia como embaixador do País na França naquela época.
Aqui, ela se tornaria “uma presença singular na cultura”, afirma a historiadora. “Sua inserção no Brasil foi rápida. Com formação plural e grande repertório cultural, tornou-se colaboradora de revistas e jornais logo no ano da chegada, escrevendo sobre moda, arte, dança, teatro e cultura, e ilustrando os próprios textos”, conta Colffield.
Em 1945, ela publicaria o livro Catarina do Brasil – A Índia que Descobriu a Europa, biografia de indígena tupinambá do século 16. Segundo a historiadora, a obra foi elogiada “pela pesquisa inédita e pela capacidade de reconstituição histórica e psicológica”.
“O alcance de Olga, porém, foi além do jornalismo”, pontua a historiadora. A escritora participou da Sociedade Pestalozzi, trabalhando com teatro de figuras. Era entusiasta do uso de marionetes, fantoches e sombras como ferramenta educativa. “Organizou oficinas, dirigiu cursos de formação e combinou criação artística com reflexão pedagógica”, destaca Colffield.
Ela escreveria o livro O Teatro na Escola sobre essa visão, frisando que a teatralização, natural na criança e o teatro de bonecos ajuda a preservá-la.
Colffield lembra da participação de Obry no movimento pela criação da Escola Nacional de Teatro e suas palestras em encontros estudantis. A escritora fundou a Sociedade Brasileira de Marionetistas e foi convidada pela prefeitura do Recife para formar artistas lá. “Experiência esta que ela própria descreveu como marcante”, pontua.
De acordo com a historiadora, Obry não queria voltar à Europa. O retorno, em 1952, ocorreu por vontade do marido, Lewinohn. “Depois do exílio, ela trabalhou por muito tempo como correspondente para jornais brasileiros e manteve vínculos intelectuais como Brasil”, ressalta.
“Ele acabaria se apaixonando pelo Brasil”, afirma o escritor Rezzutti. Daí nasceria a vontade de biografar Leopoldina. Já baseada na Europa, embrenhou-se em pesquisas em fontes até então inéditas sobre a primeira mulher de dom Pedro, com acesso às cartas que ela trocava com os familiares.
“O grande mérito do livro dela foi trazer essas fontes primárias”, destaca Rezzutti.
O biógrafo critica muito o apagamento sofrido por ela e lamenta por seu trabalho não ter sido devidamente reconhecido a seu tempo.
O livro de Paulo Rezzutti traz, pela primeira vez, os devidos créditos a essa intelectual nascida no então império russo, que viveu na Alemanha, fugiu para o Brasil por conta do nazismo e, depois, de volta à Europa, debruçou-se sobre a vida de uma personagem basilar da história brasileira.


