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Ataques mirins a Felca no Roblox refletem descontrole da sociedade nas redes sociais

Ataques mirins a Felca no Roblox refletem descontrole da sociedade nas redes sociais

De uns dias para cá, o youtuber Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como Felca, vem sendo atacado por crianças no Roblox, uma das plataformas de jogos infantis mais populares do mundo. Elas o responsabilizam por novas regras de segurança no ambiente, mais restritivas. Mas vale observar que ele está sendo hostilizado sem ter feito nada para merecer isso.

Esse comportamento de “cancelamento” gratuito está longe de ser novidade nas redes sociais. Basta alguém com relativa influência decidir que não gosta de outra pessoa, para ela passar a ser agredida por uma multidão online. Mas esse caso traz algumas particularidades que podem ensinar muito, principalmente aos adultos.

O Roblox agora exige verificação facial para tentar identificar a idade do usuário e restringe o chat interno a usuários com faixas etárias semelhantes. A plataforma tenta assim proteger seus usuários de pedófilos e aliciadores sexuais.

As medidas resultam de pressões crescentes de governos de várias partes do mundo, especialmente do Estado americano da Louisiana e da Austrália. Nessa última, as redes sociais estão totalmente proibidas para menores de 16 anos desde o dia 10 de dezembro.

O Roblox continuou liberado, mas precisou implantar medidas de segurança melhores. E elas vieram para o mundo todo, pois não faria sentido investir tanto só para um punhado de mercados. É delas que as crianças brasileiras estão reclamando.

Felca virou o bode expiatório graças a seu vídeo “Adultização”, que em agosto denunciou sexualização e exploração de menores nas redes sociais. Hoje com mais de 51 milhões de visualizações, ele provocou debates legislativos no Basil, acelerando a criação do ECA Digital. Apesar disso, não há relação com as mudanças do Roblox. A plataforma chegou a se pronunciar contra os ataques.

Alguns especialistas argumentam que os protestos infantis podem estar sendo, pelo menos em parte, manipulados por adultos. Isso porque, entre as mensagens infantis, surgiram referências culturais típicas de pessoas mais velhas. E não se pode ignorar que Felca se tornou alvo de pedófilos com seu vídeo, justamente um grupo que pode estar sendo prejudicado com as novidades do Roblox.

Infelizmente ele não foi a primeira e nem será a última vítima desse linchamento digital. Por exemplo, em 2020, o médico Drauzio Varella foi alvo de uma campanha massiva de ódio por abraçar, em uma reportagem, uma detenta transexual, que havia cometido um crime grave. Muita gente transferiu a repulsa pelo crime para o médico, “culpado” por humanizar a detenta.

Em todos esses casos, a pessoa cancelada não é o problema central, mas se torna um símbolo acessível dele. O cancelamento surge como atalho emocional para lidar com temas difíceis ou desconfortáveis. É mais fácil atacar alguém do que discutir estruturas de poder, modelos de negócio, falhas regulatórias ou responsabilidades coletivas.

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O episódio do Roblox expõe como esse mecanismo fica ainda mais delicado quando envolve crianças e adolescentes. Isso revela o quanto estamos falhando na educação emocional e digital dos jovens, que crescem como adultos disfuncionais. A incapacidade de lidar com frustração, limite e mudança desagua em uma hostilidade descomunal. O ambiente, em vez de ensinar negociação e convivência, acaba ampliando impulsos primários destrutivos.

Por isso, não se trata apenas de defender ou criticar uma pessoa específica, e sim de reconhecer que o ódio gratuito é um sintoma, não a causa. Esse problema, cada vez mais disseminado e normalizado pelas redes sociais, incentiva reações extremas em sociedades pouco treinadas para lidar com complexidades, com uma cultura digital que prefere culpados visíveis a responsabilidades reais.

Enquanto continuarmos terceirizando nossas frustrações para indivíduos, em vez de enfrentarmos os problemas reais, o próximo alvo surgirá a qualquer momento. Qualquer que seja a solução, ela só virá com a colaboração de toda a sociedade, envolvendo as plataformas digitais. E elas precisam abandonar medidas paliativas e discursos hipócritas e partir para soluções verdadeiramente eficientes, mesmo que contrariem seus ganhos bilionários vinculados ao engajamento sem limites.


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