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Qual região tem mais mortes no trânsito no Brasil? Tendência acende novo alerta

Qual região tem mais mortes no trânsito no Brasil? Tendência acende novo alerta

Por que cresceu o nº de mortes em acidentes de trânsito no Brasil e quem são as vítimas?

Crédito: Larissa Burchard/Raul Carvalho/Estadão

Em 2024, todos os dias morreram, em média, 102 brasileiros nas vias e estradas do País – um total de 37.150 vítimas, segundo o Ministério da Saúde. A alta é de 6,5% em relação a 2023, quando foram contabilizados 34.881 óbitos. É o quinto ano consecutivo de crescimento desde 2019. O Ministério dos Transportes diz, em nota, adotar medidas para reduzir a letalidade do trânsito, como a simplificação do acesso à Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e orientações para a adequação dos limites de velocidade nas vias (veja mais abaixo).

Os números são alarmantes e demonstram que o Brasil tem sido incapaz de frear o número de acidentes com vítimas fatais. Em um recorte por macrorregião nota-se que no Nordeste a situação é crítica.

Em 2024, os nove Estados nordestinos somaram 11.885 mortes (32% do total nacional), embora a região abrigue 27% da população brasileira. Entre eles, Alagoas apresenta o maior índice de crescimento de óbitos com 22,84%. Com isso, a região supera o Sudeste (10.929 óbitos) pela primeira vez na série histórica.

Motos preocupam

Dos 15.459 ocupantes de motocicletas mortos no País em 2024, 6.116 (39,5%) estavam no Nordeste, o que faz desse o maior contingente regional de vítimas em um mesmo tipo de usuário. Em comparação com 2023, as mortes de ocupantes de moto na região cresceram 13,8%.

Segundo Tiago Bastos, conselheiro do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), alguns fatores podem explicar esses números. “No Nordeste, há maior proporção de motocicletas na frota de veículos, aspecto associado ao menor nível de desenvolvimento econômico e social da região”, diz.

“A esses fatores somam-se ⁠baixos níveis de fiscalização do uso do capacete e sobre a habilitação para condução”, acrescenta o professor de segurança viária da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Além disso, em muitos Estados da região, o número de motocicletas na frota é maior que o total de condutores habilitados para conduzi-las. Outro fator é a proliferação dos serviços regulamentados ou não de mototáxi e motofrete. A infraestrutura viária deficiente agrava o problema”, finaliza Bastos.

E o número de motos circulando na região tende a aumentar cada vez mais. Segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores(Fenabrave), em 2025 foram registrados mais de mais de 728 mil de emplacamentos de motos nos Estados nordestinos, um recorde.

Nas vias da região não são raras as imagens de motos transportando de forma imprudente três ou quatro passageiros, entre adultos e crianças. Outro fator contribui para isso: a própria vulnerabilidade do modal.

“Motos são os veículos mais inseguros já produzidos para deslocamento terrestre. Não é possível hoje garantir circulação segura em motocicletas, a não ser que sejam conduzidas abaixo de 30 km/h. E elas não são feitas para isso”, explica Diogo Lemos, coordenador executivo da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global.

Região Norte: aumento acima da média nacional

A Região Norte também apresenta dados preocupantes, já que o crescimento de mortes nas vias públicas em 2024 foi de 15,71% — bem acima da média nacional de 6,5%. Essa liderança negativa é puxada pelos péssimos índices dos Estados do Acre e de Amazonas: 52,69% e 28,47%, respectivamente. Alguns fatores justificam esses números, como aumento mais recente da motorização, precariedade da infraestrutura rodoviária (rodovias de pista simples e vias urbanas que priorizam os automóveis) e falta de fiscalização dos principais comportamentos de risco,

Das 27 Unidades da Federação, apenas duas conseguiram reduzir seus índices: Roraima (-9,74%) e Rio de Janeiro (-34,96%).

Em termos nacionais, quando se observa os dados relacionados ao modo de transporte em que a vítima se encontrava na hora do sinistro, ocupantes de motos continuam a ser as maiores vítimas. Em 2024, houve total de 1.982 vítimas a mais em relação a 2023, crescimento de 14,71%.

Chama a atenção também o aumento de óbitos envolvendo pessoas que estavam em caminhões e ônibus – 30,22% e 28,30%, respectivamente. Entre os possíveis fatores que agravam o cenário, estão péssimas condições das rodovias em vários Estados do Brasil.

Quanto ao sexo, homens representaram 82%. A faixa etária com a maior quantidade de mortes no trânsito permanece de 20 a 24 anos.

Tendência de crescimento

Esse cenário faz com que os especialistas tenham pouco otimismo em relação a reduzir o número de acidentes nos próximos anos. “Infelizmente, o Brasil está em clara tendência de crescimento de mortes no trânsito. Medidas como a redução das exigências para a CNH e a falta de priorização dos sistemas de transporte público nas cidades contribuem para essa tendência de aumento de sinistros”, acrescenta Bastos, do ONSV.

Diogo Lemos, da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, alerta que os números divulgados pelo Ministério da Saúde são preocupantes. “Segurança viária é um dos principais problemas de saúde pública do mundo. As mortes no trânsito representam a 12ª causa de mortes para todas as pessoas. Mas é a principal para crianças e jovens de 5 até 29 anos no mundo. Isso também vale para o Brasil, para o Estado de São Paulo.

“Por isso, é preciso entender o trânsito não apenas como uma questão de congestionamentos, como geralmente se debate. Mas sim como uma questão gravíssima de saúde pública”, acrescenta.

‘Falta de comprometimento em salvar vidas no trânsito’

O especialista argumenta que todas as pessoas têm sua responsabilidade no trânsito e tem de cumprir regras, mas o principal ator desse sistema é o poder público, que pode tomar as iniciativas corretas para salvar vidas no trânsito. “Existe total falta de comprometimento em salvar vidas no trânsito. Isso passa por todos os governos, de todas as esferas (governos federal, estaduais e municipais)”, avalia Lemos.

“Nossas ruas, avenidas e estradas são totalmente inseguras, pois não adotam parâmetros nenhum de segurança”, explica. Para ele, para aumentar a segurança viária e reduzir os acidentes, seria necessário colocar em prática algumas ações, como reduzir as velocidades das vias, aumentar a fiscalização, melhorar a infraestrutura viária, oferecer mais segurança para pedestres, idosos e ciclistas. “Fortaleza foi um bom exemplo até 2022. Depois, houve um afrouxamento da fiscalização e os números de sinistros voltaram a subir”, lembra.

Investimento em conscientização e transporte público

Outras iniciativas que poderiam dar bom resultado seriam o poder público fazer amplas campanhas de divulgação para conscientizar as pessoas sobre os perigos de dirigir alcoolizado e ultrapassar os limites de velocidade. Além de aumentar o investimento em transporte público para estimular o uso do modal e reduzir o número de carros particulares e motos nas ruas.

“O sistema de mobilidade hoje cada vez mais saindo do transporte coletivo e adotando a motocicleta como principal meio de deslocamento. E as pessoas não têm a dimensão do perigo e do risco que isso representa”, finaliza o especialista da da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global.

Governo cita CNH e guia de velocidades como medidas

Em nota, o Ministério dos Transportes afirma que “tem adotado uma abordagem ampla e preventiva para enfrentar a violência no trânsito, atuando desde a formação de condutores até a fiscalização e a melhoria da infraestrutura viária. A estratégia combina educação, incentivo à regularização de motoristas e estímulo a comportamentos responsáveis como elementos centrais para salvar vidas e reduzir sinistros em todas as regiões do País”.

O Ministério também citou que duas iniciativas recentes reforçam essa estratégia: o programa CNH do Brasil e a MP do Bom Condutor, quje prevê renovação automática e gratuita da CNH para bons motoristas, eliminando exames médicos e taxas para quem não cometeu infrações nos últimos 12 meses.

Segundo a pasta, “o Brasil ainda convive com um cenário em que mais de 20 milhões de pessoas dirigem sem Carteira Nacional de Habilitação. A CNH do Brasil busca justamente baratear e simplificar o processo para obtenção da habilitação”.

O ministério afirmou ainda que “a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) elaborou o Guia de Gestão de Velocidades no Contexto Urbano, publicação que reúne boas práticas nacionais e internacionais para combater o desrespeito aos limites de velocidade, definir limites adequados ao contexto das vias e promover soluções de engenharia e fiscalização compatíveis”.

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