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Desejo de aprender cria a melhor defesa contra o “emburrecimento pela IA”

Desejo de aprender cria a melhor defesa contra o “emburrecimento pela IA”

Quando o ChatGPT foi lançado, em novembro de 2022, um dos medos que as pessoas mais traziam para mim era se, com o tempo, nós nos tornaríamos “burros” ou pelo menos “intelectualmente preguiçosos”. Naquele momento, eu respondia que achava aquilo pouco provável, pois a tecnologia não era boa o suficiente para terceirizarmos nosso pensamento.

Passados três anos, sou obrigado a rever aquela posição. E o reinício das aulas é um momento interessante para debater isso.

As capacidades da inteligência artificial vêm avançando galopantemente. Os sistemas atuais fazem aquele primeiro ChatGPT parecer um “brinquedo cognitivo”.

Vejo como um erro existencial a delegação de nosso raciocínio, decisões e até inspiração para as máquinas. Isso deveria ser suficiente para nos proteger do “emburrecimento pela IA”.

Mas observo apreensivo uma quantidade crescente de pessoas de diferentes formações, idades e classes sociais fazendo exatamente isso. É algo muito preocupante, pois pode efetivamente levar a sociedade a um declínio cognitivo sem precedentes.

Isso também pode agravar o fosso social. Nessa realidade em que a tecnologia molda a sociedade, podemos ver o distanciamento daqueles que são manipulados pela IA em relação àqueles que reforçam o seu desejo de aprender com ela. Ao ampliar suas capacidades cognitivas assim, ganharão mais importância no mundo.

Demis Hassabis, CEO e cofundador do Google DeepMind, disse, em uma palestra em setembro, que a habilidade mais importante passa a ser “aprender a aprender”, para acompanhar o ritmo das mudanças da IA e o que elas provocam. O laureado com o Prêmio Nobel de Química em 2024 explicou que precisaremos otimizar nossa abordagem para novos assuntos, e que teremos que aprender continuamente.

Em junho, um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) ganhou notoriedade ao sugerir que o uso do ChatGPT para escrever textos estaria associado a um menor engajamento cerebral, baixa retenção do conteúdo e queda na sensação de autoria. Mas o artigo ainda não havia sido revisado por pares e tinha ressalvas dos próprios autores.

A verdade é que não há ainda um estudo de longo prazo sobre efeitos na cognição dessa tecnologia recém-nascida. Mas sempre quisemos saber o impacto do digital em nosso cérebro.

Em 2011, Betsy Sparrow, da Universidade de Columbia, concluiu que o uso do Google altera a forma como o cérebro humano processa a memória, transformando a Internet em uma “memória externa”. Segundo seu estudo, ao sabermos que temos um buscador à disposição, retemos menos dados, mas criamos mais estratégias de busca.

A inteligência artificial potencialmente pode superar os buscadores na sua contribuição para a maneira como adquirimos e construímos conhecimento. E pela velocidade e amplitude com que isso vem acontecendo, precisamos nos posicionar, ainda que a partir de estudos preliminares.

Especialmente os mais jovens parecem dispostos a recorrer a LLMs em vez de tirar suas próprias conclusões. Como professor, consultor e jornalista, observo pessoas acertando respostas, mas sem aprender com o que fazem. Pior ainda é notar que muita gente já confia mais na IA que em si mesma, algo grave se considerarmos as altas taxas de erro nas entregas dessas plataformas.

No final, o problema não é a tecnologia, mas como a usamos. Nossa capacidade de raciocinar foi o que nos colocou no topo do mundo, até porque nem outro ser vivo consegue fazer isso com a mesma complexidade.

Se agora relegaremos esse diferencial a uma máquina estatística sobrenatural, talvez estejamos mesmo “emburrecendo pela IA”.


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