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Um tentativa de golpe a cada 2,4 segundos: saiba como se proteger das fraudes no carnaval

Um tentativa de golpe a cada 2,4 segundos: saiba como se proteger das fraudes no carnaval

Golpe da maquininha: equipamento pode ter sido adulterado ou estar com visor quebrado

A vítima não percebe o superfaturamento e o prejuízo pode ser enorme.

As aglomerações e o maior número de pessoas com seus celulares nas ruas facilitam a ação de golpistas durante o carnaval. Em 2024, segundo a Serasa Experian, houve uma tentativa de fraude a cada 2,4 segundos durante os dias de folia em todo o Brasil. As fraudes digitais, diferentes dos furtos físicos, só são percebidas dias depois, quando a vítima verifica o extrato bancário ou recebe cobranças indevidas. A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) recomenda ajustar o limite do Pix ao valor que vai gastar na festa.

Conforme a Serasa, as novas fraudes digitais no carnaval têm a ver com a necessidade de conexão e bateria para roubar dados dos foliões que não se separam do celular. Uma delas é o wi-fi falso. Redes com nomes genéricos como “Carnaval Free” e “Wi-Fi Bloco” são criadas pelos golpistas para interceptar dados de quem se conecta. A técnica permite capturar senhas, dados bancários e informações pessoais sem que a vítima perceba. A Serasa recomenda evitar redes públicas desconhecidas e usar apenas a conexão móvel (4G/5G) durante a folia.

Os totens de carregamento USB em locais públicos também podem ser usados para instalar vírus e programas no celular enquanto o aparelho é carregado. Isso porque a entrada USB transmite tanto energia quanto dados, e criminosos exploram essa brecha para acessar informações do dispositivo.

Já a tecnologia NFC (usada em pagamentos por aproximação) pode ser explorada quando criminosos aproximam maquininhas de bolsos e bolsas para realizar cobranças indevidas sem o conhecimento da vítima.

Alto volume de transações

Segundo Thiago Amaral, sócio do Barcellos Tucunduva Advogados nas áreas de meios de pagamento e fintechs e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), a distração e o uso cada vez maior de meios de pagamento digitais aumentam o risco de fraudes nesse período. “Os golpistas se aproveitam do alto volume de transações para aplicar fraudes que muitas vezes passam despercebidas. Um dos golpes mais comuns é a troca de cartões, onde o consumidor entrega seu cartão ao vendedor, que observa a senha digitada e devolve outro cartão idêntico, mas pertencente a outra vítima”, explica.

O especialista recomenda priorizar pagamentos por aproximação com cartão ou carteiras digitais, que exigem autenticação em duas etapas, como senha, biometria ou reconhecimento facial. “Além disso, é fundamental conferir atentamente os valores exibidos na maquininha antes de concluir qualquer transação.”

Além disso, caso um celular desbloqueado seja roubado, o criminoso poderá realizar transações antes que a vítima consiga bloquear o aparelho. “Para minimizar os riscos, é essencial ativar a autenticação por senha ou biometria no desbloqueio do celular e definir limites de pagamento no aplicativo do banco, especialmente durante o carnaval, quando as tentativas de fraude tendem a aumentar”, diz.

Distração e álcool

De acordo com o advogado Alexander Coelho, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Digital e Cibersegurança, a combinação entre distração, consumo de álcool e uso intenso do celular cria um ambiente ideal para a ação de criminosos. “O aparelho roubado é apenas o primeiro estágio do golpe. Em poucos minutos, ele pode se transformar em porta de entrada para aplicativos bancários, redes sociais e dados pessoais sensíveis. O prejuízo financeiro é consequência direta da exposição digital que começa no momento do furto.”

Entre os golpes mais comuns estão o esvaziamento de contas por meio de transferências rápidas, o uso de redes sociais para pedir dinheiro a contatos da vítima e a aplicação do chamado golpe do falso suporte técnico. “Os criminosos atuam com extrema rapidez e exploram falhas básicas de segurança. Senhas fracas, ausência de autenticação em dois fatores e falta de bloqueio remoto facilitam o acesso às contas.”

O advogado destaca que a prevenção começa antes mesmo de sair de casa para a folia. ”Reduzir temporariamente os limites de Pix, ativar biometria e autenticação em dois fatores e utilizar senhas distintas para o celular e para aplicativos bancários são medidas simples que elevam significativamente o nível de proteção. Esses cuidados também auxiliam os sistemas antifraude das instituições financeiras a identificar movimentações atípicas.”

Caso o furto ou roubo aconteça, a orientação é agir imediatamente, segundo ele. “O tempo é determinante. Em caso de furto ou roubo, é fundamental bloquear imediatamente o aparelho, comunicar o banco, registrar boletim de ocorrência e solicitar a contestação das transações. Quanto mais rápida a reação, maiores são as chances de conter o dano e recuperar valores.”

Ajustar limites do Pix

A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) observa que um dos golpes mais comuns nesta época do ano é o “golpe da maquininha”. Nesse tipo de crime, criminosos que atuam como vendedores observam a digitação da senha e, ao devolver o cartão, fazem a troca sem que a vítima perceba.

Com o cartão e a senha em mãos, eles realizam compras indevidas. A instituição recomenda redobrar os cuidados ao efetuar pagamentos nas ruas.

Ao usar a maquininha, o visor do campo de senha deve exibir apenas asteriscos. O cliente também não deve concluir a compra caso o display do equipamento esteja danificado. Outro ponto essencial é inserir pessoalmente o cartão na máquina e confirmar se o cartão devolvido é realmente o seu.

“Antes de sair de casa, o cliente pode ajustar os limites do Pix e de seu cartão de crédito para valores que realmente for usar na festa. Outra dica é personalizar seu cartão, para que fique fácil sua identificação”, aconselha Raphael Mielle, diretor de Serviços e Segurança da Febraban.

Outra recomendação é sempre solicitar o comprovante impresso da transação ou conferir, no aplicativo do banco ou nas mensagens SMS, se o valor debitado está correto — inclusive em operações realizadas por aproximação.

Os cuidados também devem ser redobrados em relação ao celular. Assim como os cartões, o aparelho não deve ser transportado solto em bolsos, especialmente em locais com grande circulação de pessoas. Em situações de roubo ou furto em via pública, quando o celular está em uso, os criminosos podem ter acesso ao aparelho já desbloqueado. A partir disso, buscam senhas salvas em aplicativos e sites para tentar entrar no aplicativo bancário da vítima.

A Febraban reforça que os aplicativos dos bancos seguem rigorosos padrões de segurança em todas as etapas, desde o desenvolvimento até a utilização. “Não há registros de invasão desses sistemas, que utilizam tecnologias avançadas e exigem, obrigatoriamente, senha pessoal e um segundo fator de autenticação definido por cada instituição financeira”, diz.

A Federação também recomenda que o cliente baixe o aplicativo Celular Seguro, do Ministério da Justiça, feito em parceria com a Febraban e Anatel, que permite que um celular perdido, furtado ou roubado seja bloqueado de maneira rápida.

Dados da Associação de Defesa dos Direitos do Público (ADDP) reforçam o alerta: segundo o último levantamento da entidade, referente ao período de janeiro a setembro de 2025, foram registrados cerca de 28 milhões de golpes envolvendo o Pix e 2,7 milhões de compras online fraudulentas no Brasil.

Para o advogado Francisco Gomes Junior, especialista em direito digital e presidente da ADDP, o carnaval reúne um conjunto de fatores que favorece a ação dos criminosos. “Em festas e blocos de rua, uma estratégia segura é levar um celular mais simples, com apenas o aplicativo do banco e um valor mínimo para o dia, e deixar o aparelho principal em casa, com todos os dados pessoais e aplicativos de redes sociais e bancos”, recomenda.

Celular com restrição

Nesta sexta-feira, 6, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) fez parceria com a empresa de tecnologia Meta para o envio de notificações para celulares com restrição criminal. A iniciativa prevê que a Polícia Civil realize o disparo das intimações por um número verificado, com selo de verificação oficial.

A tecnologia contorna os bloqueios automáticos (spam) que estavam restringindo o avanço dos trabalhos de investigação. A partir da parceria, cerca de 2 mil notificações estão sendo encaminhadas nesta semana para celulares com queixas criminais. Os intimados deverão comparecer à delegacia indicada no documento dentro do prazo estabelecido para prestar esclarecimentos.

A iniciativa faz parte do programa SP Mobile que integra ações de prevenção e repressão a furtos e roubos de celulares. O objetivo é dificultar a circulação de aparelhos com restrição ou de origem criminosa que foram reativados por terceiros e que também são usados para golpes. Criado em junho do ano passado, o programa já recuperou 17,5 mil celulares, restituiu 5,9 mil aparelhos às vítimas e enviou mais de 5,4 mil notificações.

Em São Paulo, a polícia vai usar 25 drones para o monitoramento aéreo de blocos, desfiles e grandes aglomerações, com transmissão de imagens em tempo real para as centrais de comando e controle. O acompanhamento permite identificar situações de risco, deslocamentos fora do previsto e práticas criminosas, orientando com precisão as equipes que atuam nas ruas.

Agentes à paisana atuam nos principais pontos de concentração de foliões, com foco na prevenção e repressão a furtos e roubos, especialmente de celulares. O Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra) realiza policiamento preventivo especializado em áreas de maior fluxo.

Golpes mais comuns no carnaval

  • Golpe do Pix: O vendedor mostra um QR Code adulterado, direcionando o pagamento para outra conta. Em outra variação, como celular furtado da vítima, criminosos acessam apps bancários e fazem transferências. Como se proteger: Conferir o valor e a conta de destino antes de confirmar qualquer Pix. Manter o celular e cartões em local de difícil acesso, dentro da roupa ou na doleira.
  • Golpe da maquininha: O golpista oferece bebidas e produtos a preços acessíveis e, para o pagamento, entrega maquininha com visor quebrado ou pouco visível. A vítima só percebe depois que o valor cobrado foi muito maior que o combinado. Em outra versão, o criminoso troca a maquininha por outra que clona os dados do cartão. Como se proteger: Conferir o valor na maquininha antes de digitar a senha, recusar visor quebrado ou apagado. Pedir o comprovante de pagamento. Preferir pagamento em dinheiro com vendedores ambulantes.
  • Golpe da troca de cartão: O vendedor pede o cartão para passar na maquininha, decora a senha digitada e devolve outro cartão igual à vítima. Com o cartão dela, faz compras ou transferências rápidas. Como se defender: Não entregar o cartão ao vendedor. Não expor a senha digitada.
  • Golpe do beijo: Em blocos de rua, bares ou salões, uma pessoa se aproxima de forma sedutora e beija a vítima, enquanto outra rouba seu celular ou carteira. Como se proteger: Evite levar o celular e carteira em bolso ou bolsas, mantendo sob a roupa ou em doleira.
  • ‘Boa noite, Cinderela’ financeiro: Nessa versão do golpe tradicional, criminosos colocam substâncias em bebidas para deixar a vítima sonolenta ou inconsciente de acessar o celular para roubar dados ou fazer transferências. Como se proteger: Não aceitar bebidas ou alimentos de desconhecidos.

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