Excitação com a IA não pode nos fazer esquecer que nós estamos no comando
Isabella abraça Theodore, sob às ordens do sistema operacional inteligente Samantha, no filme “Ela” (2013) – Foto: reprodução
Há umas duas semanas, quando soube do Moltbook, uma “rede social” em que só agentes de inteligência artificial podem publicar, minha reação imediata foi questionar para que serve aquilo. Afinal, a essência dessas plataformas é colocar pessoas em contato. Já a “novidade da semana” relega humanos à posição de espectadores passivos, deixando toda a atividade para sistemas que não passam de regurgitadores de textos desalmados se retroalimentando.
Parece estúpido, e talvez seja mesmo! Alguns podem dizer que se trata de um experimento para avaliar a evolução do diálogo entre máquinas sem interferência humana, argumento que posso achar válido, como pesquisador. Mas ele já caiu por terra, pois a plataforma foi invadida por agentes de IA cuja função é publicar textos que são, na verdade, produzidos por pessoas.
Eis que, apenas uma semana depois, algo ainda mais inusitado (para dizer o mínimo) surge. O site Rent a Human (ou “alugue uma pessoa”) serve para que agentes contratem seres humanos para realizar atividades no mundo físico para os robôs, o que a IA obviamente não consegue.
Não há contato entre pessoas. O humano cria seu perfil na plataforma, e o agente o encontra, contrata e, após a comprovação da tarefa cumprida, o paga em dólares ou criptomoedas. Tudo de maneira automática!
Então é isso: parece que chegamos à era em que as pessoas trabalharão para as máquinas, e não mais o contrário!
Eu particularmente esperava que ainda demorasse alguns anos para isso. Mas, em tempos de inteligência artificial, a pressa, a inconsequência, o descuido e a falta de responsabilização parecem ter se tornado a essência da vida.
Bizarrices à parte, essas plataformas pelo menos nos levam a algumas reflexões importantes.
O caso me fez lembrar do filme “Ela” (2013), uma ficção que se passa em um futuro próximo (cada vez mais próximo) em que o protagonista Theodore (Joaquin Phoenix) se apaixona por Samantha, o sistema operacional com IA de seu computador e celular (interpretado pela voz de Scarlett Johansson). À medida que o relacionamento esquenta, o casal esbarra na limitação óbvia de que ela não tem um corpo.
Samantha então contrata Isabella (Portia Doubleday) como uma “substituta sexual”, para ter relações com Theodore em seu lugar. Para isso, a profissional usa uma microcâmera colada em seu rosto (como uma pinta) e fones de ouvido, para que Samantha veja o que está acontecendo e lhe dê comandos para agir como se fosse ela. O encontro termina mal e inicia uma crise na relação, pois ambos percebem que, por mais avançada que seja a IA, ela nunca terá presença física.
De volta à realidade, vemos multidões se apaixonando por plataformas de IA. Não há nada de romântico ou inocente nisso, pois esses sistemas são incapazes de amar, por mais que simulem sentimentos de maneira cada vez mais convincente. Até o dedicado Theodore entende isso no final do filme, quando Samantha lhe revela que está apaixonada por 641 pessoas simultaneamente.
A inteligência artificial é uma tecnologia disruptiva e poderosíssima, da qual devemos nos apropriar para melhorar nosso cotidiano. Mas isso exige que compreendamos até onde podemos ir com ela.
Infelizmente, muitas coisas nesse ecossistema atrapalham essa compreensão. De certa forma, as big techs fomentam o hype, pois esse frenesi é ótimo para seu negócio.
Temos que deixar as loucuras de lado e abraçar essa tecnologia pelo que ela realmente é e pelo que pode fazer por nós. Caso contrário, ela não só não nos ajudará, como ainda poderá nos prejudicar.
A IA não precisa nos substituir para nos diminuir. Basta que aceitemos papéis cada vez mais subalternos na relação.
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