Tia Geraldina ia desfilar pela 1ª vez, mas morreu no carnaval de 1971: ‘A minha escola está linda’
A minha escola está linda.
Geraldina Silva de Oliveira, a Tia, 21/2/1971

Notícia da morte da Tia Geraldina no Jornal da Tarde de 24 de fevereiro de 1971. Foto: Acervo Estadão
- Nem sempre o carnaval é marcado por alegrias. Para a escola de samba Príncipe Negro, de Vila Prudente, e para uma família de sambistas o carnaval do ano de 1971 foi de grande tristeza. Geraldina Silva de Oliveira, a Tia, como era conhecida a presidente da ala feminina da escola, morreu quando se preparava para desfilar pela primeira vez na sua vida. O Jornal da Tarde de 24 de fevereiro de 1971 contou a história de Tia numa reportagem sobre o seu cortejo fúnebre e o desfile da escola de samba no centro da cidade. Leia a íntegra com a grafia original da época:
Geraldina, ou Tia, como era mais conhecida, além de presidente da ala feminina, era figurinista, costureira e orientadora da escola. Nunca pôde desfilar no carnaval. Tinha de ficar consertando as fantasias e dando conselhos às sambistas, na hora do desfile. Este ano, como a Escola cresceu e outras pessoas começaram a fazer o seu serviço, Geraldina conseguiu desfilar pela primeira vez, nos seus 58 anos, na ala feminina da Sociedade Príncipe Negro de Vila Prudente.
Jornal da Tarde, 24/2/1971
Jornal da Tarde – 24 de fevereiro de 1971
ERA O PRIMEIRO DESFILE DA VELHA SAMBISTA QUE MORREU
A escola de samba está formada. À frente, a comissão de frente, quatro homens de terno azul, com laço listrado no lugar da gravata e a palheta azul escuro brilhante na mão. Logo atrás, seis baianas segurando corôas de flôres. Mais adiante alguns moços da bateria, com seus instrumentos nas mãos. E também os passistas, a porta-estandarte e alguns figurantes da ala da côrte. Mas não há samba, não há ritmo. O corpo de Geraldina Silva de Oliveira, presidente da ala feminina da escola de samba Príncipe Negro, de Vila Prudente, está sendo levado para o cemitério.
Geraldina, ou Tia, como era mais conhecida, além de presidente da ala feminina, era figurinista, costureira e orientadora da escola. Nunca pôde desfilar no carnaval. Tinha de ficar consertando as fantasias e dando conselhos às sambistas, na hora do desfile.
Este ano, como a Escola cresceu e outras pessoas começaram a fazer o seu serviço, Geraldina conseguiu desfilar pela primeira vez, nos seus 58 anos, na ala feminina da Sociedade Príncipe Negro de Vila Prudente. No domingo passado, fantasiada de baiana, Geraldina estava ao lado das outras baianas da Escola de Samba que ajudou a formar, (era apenas uma preparação para o desfile de segunda-feira), 15 minutos para a uma hora, quando Geraldina caiu no asfalto da rua José Vicente — a principal de Vila Prudente — vítima de um enfarte. Geraldina caiu morta, depois de ter olhado para sua Escola e comentado:
— A minha escola está linda.
Explicação dos médicos: Geraldina teve o enfarte por causa da emoção ao desfilar pela primeira vez.
Geraldina queria morrer assim, sambando. Algumas horas antes do desfile, enquanto vestia a fantasia, Geraldina disse a sua filha mais velha Aurea, que sairia êste ano com a escola para acabar com sua vontade de desfilar:
— E quando eu sair com essa fantasia, não sei se volto para casa de nôvo. Se eu cair, quero que o samba não pare, que continue a ser tocado pela escola.
Quando Tia Geraldina caiu, o samba continuou ainda durante meia hora. Só depois que um conselheiro da escola chegou perto de Ariovaldo, outro filho de Geraldina, e avisou que sua mãe tinha sido levada ao Pronto Socorro de Vila Prudente, mas que já estava morta, foi que o samba parou.
As oito e vinte da manhã de ontem quando a Príncipe Negro completava seu sétimo aniversário de fundação, o caixão com o corpo de Geraldina foi levado de uma casa simples da rua Francisco Hipolito a mesma em que morava desde que veio de Franca — para o Cemitério de Vila Alpina.
Geraldina teve seu cortejo feito pela escola de samba, como queria. O caixão foi colocado no carro fúnebre e o motorista ligou a sirena. Mas teve de seguir bem devagar, porque à sua frente iam os passistas, a porta-estandarte, os moços da bateria, as baianas e outros integrantes da escola.
Ao lado dos figurantes da Príncipe Negro, com fantasias azul e laranja, havia côres de outra escola: as côres das fantasias verde e rosa, do Bloco dos Cabeções de Vila Prudente. Eram os batuqueiros, a ala da côrte e a diretoria dessa escola, que também acompanhavam o cortejo de Geraldina.
Atrás do carro fúnebre, os filhos: Agenor, Ariovaldo, Nevaci, Antonio Sapico, todos da escola; a Áurea, que só ajuda no carnaval. Antônio de Oliveira, marido de Geraldina, integrante da Comissão de Frente, seguia com os filhos. Atrás dêles, os moradores do bairro, mais de mil pessoas, algumas chorando.
Na capela do cemitério de Vila Alpina — que fica a uns três quilometros da casa de Geraldina —a escola se mantém em formação. João Evangelista de Lucas, chefe da bateria, imita os sons do toque de lamento.
E êsse toque (um repique) acompanha o caixão com o corpo de Geraldina até urna cova do cemitério. A bateria vai à frente, as baianas com as coroas de flôres, o resto da escola e o povo atrás. Um rufo de caixa soa quando o caixão baixa à cova. Quatro maças da escola desmaiam. O rei da côrte dos Cabeções de Vila Prudente, de coroa e manto, afasta-se chorando. Enquanto os coveiros cobrem o caixão, as três caixas e o pandeiro batem o toque de lamento.
Às nove e vinte o toque pára. As duas escolas de samba começam a se afastar, devagar. E cada um vai para sua casa, descansar para o desfile da noite, no Anhangabaú.

Notícia da morte da Tia Geraldina no Jornal da Tarde de 24 de fevereiro de 1971. Foto: Acervo Estadão
E O DESFILE SAIU SEM GERALDINA
Nem a morte impediu a Príncipe Negro de desfilar
No asfalto ainda molhado, Patrícia Luiza, passista de show da escola Garotos da Chácara Santo Antonio, faz evoluções com muito ritmo e vontade. Mulata, alta, vestida com calça e mini-blusa claras e brilhantes, ela ganha muito dos poucos aplausos dados pelo público, que não chega a lotar as arquibancadas’. É pouco mais de 1h3Om da madrugada de segunda-feira. Está começando o desfile das escolas de samba do 2° grupo.
Depois de exibir para o júri sua bateria que agradou ao público, a escola Garotos da Chácara Santo Antonio se retira. Os auto-falantes anunciavam que os Acadêmicos do Ipiranga se aproximam. Ouve-se o som de sua bateria e os apelos do locutor oficial para que os assistentes batam palmas e “vibrem com o Carnaval da Vitória, Carnaval 71, carnaval prá frente, da’ Secretaria de Turismo e Fomento da Prefeitura”.
Cantando seu samba-enrêdo Rua do Ouvidor, embora sem ouvir aplausos, a escola se aproxima. À frente — como manda o regulamento do desfile — vem a bateria, vestida com camisas azuis e calças amarelas. A bateria pára em frente ao palanque oficial e ao abrigo do juiz que julga as baterias.
Vem o carro-alegórico —uma rua com quatro postes, três moças e um garotinho, com fantasias pobres — representando a rua do Ouvidor. O tocador de pratos da bateria, vê um dos pratos voar de suas mãos e fica sem jeito. Mas não tem culpa: a alça do prato quebrou.
Às três horas, a Escola de Samba Primeira de Santo Estevam começa a desfilar. Sem a chuva, que não voltaria mais, o público toma uma parte da praça das Bandeiras, perto do viaduto — e, também, uma parte do viaduto. Os palanques não chegam a lotar. Atrás dos cordões de isolamento do Anhangabaú, no lado da avenida São João, umas mil pessoas vêem o desfile.
Sob o viaduto Santa Efigênia, os 400 figurantes da Escola de Samba Príncipe Negro se preparam — embora ainda não seja sua vez de desfilar. Geraldina, presidente da ala feminina da escola, morreu no dia anterior. Mas, Graciano de Melo Galvão, procurador-geral repete a informação que tôda a escola recebeu: “Ela disse que mesmo se morresse, o samba deveria continuar. E nós temos que, continuar”.
Diante do palanque oficial está desfilando a Escola de Samba Acadêmicos do Peruche. Seu carro alegórico, mostra dois bonecos negros, trabalhando em uma moenda de cana (o enrêdo da escola é Cana de Açúcar no Brasil).
Às quatro e vinte, os auto-falantes pedem silêncio, anunciam a escola Príncipe Negro e contam que sua presidente da ala feminina morreu. Não se ouve o som da bateria. Só o toque de surdo anuncia os músicos que vêm andando devagar, de chapéu na mão e cabeça baixa. Eles param diante do palanque oficial e fazem um minuto de silêncio. Então o chefe da bateria apita e o samba começa.
Na bateria não estão Agenor, e Ariovaldo, tocadores de caixa; nem Nevaci, pandeirista. São filhos de Geraldina que ficaram no velório. Faltam também, no desfile, Antonio, passista, também filho, e Antonio de Oliveira, que forma na comissão de frente, marido de Geraldina.
Às cinco e dez os auto-falantes pedem aplausos para a escola Morro da Casa Verde (— “Mais aplausos, mais altos”, pede o locutor). Vestida toda de verde e rosa, a última escola do desfile apresenta seu enrêdo, “Brasil, samba e flôres”. Em um grande pandeiro do carro alegórico estão escritos o tema e o nome dos estados da União. A bateria da Morro da Casa Verde agrada ao júri. Quando acaba de se apresentar é dia claro. Umas quatro mil pessoas começam a deixar o vale do Anhangabaú.

Notícia da morte da Tia Geraldina no Jornal da Tarde de 24 de fevereiro de 1971. Foto: Acervo Estadão
TRAGÉDIAS DO CARNAVAL
A morte de Tia Geraldina foi uma tragédia atípica naquele carnaval de 1971. Além da morte da sambista numa das chamadas de capa, o Jornal da Tarde destacou na manchete da primeira página as mais de 100 mortes ocorridas no feriado, sendo 57 nas estradas.

Notícia da morte da Tia Geraldina no Jornal da Tarde de 24 de fevereiro de 1971. Foto: Acervo Estadão
JORNAL DA TARDE
Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.
Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.



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