×

O casamento de Pelé e Rose numa manhã de carnaval em 1966. Nervoso, noivo pediu água com açúcar

O casamento de Pelé e Rose numa manhã de carnaval em 1966. Nervoso, noivo pediu água com açúcar

A cerimônia de casamento de Pelé e Rose em 1966 era uma notícia de peso em qualquer jornal naquele ano. O maior jogador da história do futebol já era bicampeão mundial de clubes pelo Santos e pela seleção brasileira e, aos 25 anos, tentaria o tri na Copa do Mundo da Inglaterra no meio do ano. Para o Jornal da Tarde, a notícia era ainda mais especial. Foi o jornal quem em seu primeiro número, em 4 de janeiro, deu o furo (notícia exclusiva antes dos veículos concorrentes) de que Pelé iria se casar no carnaval.

No dia do casamento, uma segunda-feira de carnaval, a capa do Jornal da Tarde foi dedicada inteira ao assunto, com a manchete “PELÉ CASA ESTA MANHÔ, uma foto do jogador de costas, chapéu, camisa listrada e com os braços erguidos sobre a legenda:

“Ontem de madrugada Pelé brincou pela última vez sozinho no carnaval do Santos. Casa-se hoje de manhã e à tarde leva à Europa a espôsa Rosemere.”

Leia abaixo a íntegra do texto publicado no jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), publicação mãe do Jornal da Tarde, que noticiou em detalhes como foi a cerimônia na casa do jogador, em Santos.

O Estado de S. Paulo – 22 de fevereiro de 1966

Pelé casou de manhã

Pelé casou ontem, às 8 e 15, com a srta. Rosemere Cholbi. Tanto a cerimônia religiosa quanto a civil, nessa ordem e uma logo após a outra, tiveram no lugar na residência do jogador, onde também foi oferecida a recepção. Às 13 horas, os noivos e seus parentes mais chegados seguiram para Campinas. Às 17 horas, Pelé e sua esposa voavam para Frankfurt.

O CASAMENTO

Eram 8 e 15 da manhã e na sala grande da residência da família de Pelé havia 58 pessoas. Edson Arantes do Nascimento e sua noiva Rosemere Cholbi; Frei Henrique Maria de Pirassununga, da Paróquia do Embaré, d. Ambrosina, avó de Pelé, casal João Ramos do Nascimento (Dondinho) e Celeste Arantes do Nascimento, pais de Pelé; Maria Lucia e Jair (Zoca) irmão de Pelé; Jorge, João e Sonia Maria, respectivamente tio, primo e prima do jogador; José Osores Gonzales e senhora; Nicolau Moram e senhora; João Carlos Amador e senhora, e José Macia (Pepe) e senhora, todos padrinhos de casamento de Pelé e Rose; dezenove jornalistas e alguns amigos íntimos das famílias do noivos.

Frei Henrique Maria de Pirassununga, sacerdote de 45 anos de idade, que está na paróquia de Embaré há seis anos e gosta de fazer pregações contra o comunismo, começou a celebrar o casamento.

Os pais de Pelé, Dondinho e D. Celeste, e o dirigente santista Nicolau Moraes, com sua esposa, foram seus padrinhos na cerimônia religiosa. De Rose, foram padrinhos José Macias (Pepe) e senhora, e o sr. Guilherme Cholbi e d. Idalina Cholbi.

Pelé estava nervoso (pouco antes pedira um copo de água com áçúcar) e a noiva também. Ele não usou fraque; trajava terno azul-noite, de alpaca brilhante, um dos quatro que o alfaiate Wilson Canalongo lhe havia entregue no sábado à noite. Cada um dêles custou cento e oitenta mil cruzeiros.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Rose usou o vestido que sua mãe confeccionara: todo em renda francesa, forrada com cetim natural. A causa, também de cetim, com 4 metros de comprimento, tinha igualmente aplicações de renda. Do casquete, com tule e com rosas aplicadas, desciam três véus de tule de nailon. Na mão o buquê de rosas que o padrinho Pepe lhe dera. O vestido custou um milhão e oitocentos mil cruzeiros.

UM ALTAR SIMPLES

A sala grande da casa que era de Pelé e agora pertence aos seus pais e irmãos, é representada pelo conjunto de um “living” e de uma sala de visitas, ambos, bem decorados. Do outro lado da sala de visitas, sôbre um móvel de imbuia clara, dona Celeste e dona Idalina armaram um altar simples, com dois crucifixos dourados e uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, da qual Pelé é fervoroso devoto. Muitas flores brancas, e rosas vermelhas, dispostas em vasos de cerâmica e de cristal, ornamentavam a sala.

A cerimônia religiosa, singela e tocante, foi realizada antes do ato civil devido à profunda crença de Pelé.

OUTRO ATO SIMPLES

Às 8 e 40, na grande área externa da residência, o juiz Antonio Carlos Maia oficiou o ato civil, e a cerimônia durou apenas 20 minutos. José Osores Conzales e senhora foram os padrinhos de Pelé, e João Carlos Amador e senhora, os padrinhos de Rose.

A área externa da casa da rua Almirante Cokrane fica entre a cozinha e a área destinada às empregadas. Mede 10 metros por 6 e é coberta com telhas vermelhas sustentadas por madeira envernizada. Lá estavam a mesa grande, com o bôlo branco – dois grandes corações enfeitados de rosas, sobre uma parte retangular – outras meses menores e a churrasqueira rústica que monopolizava as atenções de Dondinho e do tio Jorge.

ÓRGÃO EMPRESTADO

Para o casamento religioso, dona celeste notou, na tarde de sábado, que estava faltando algo. Algo que ajudasse no momento que ela julgava “mais difícil para as famílias dos noivos. E pensou na música de um órgão. Foi ao Colégio Santa Marcelina, bem próximo de sua casa, falou com irmã Maria Amalia, e esta se dispôs a emprestar o órgão do Colégio e também a executar a ”Marcha Nupcial” e outras músicas adequadas, durante a cerimônia religiosa.

RECEPÇÃO AMIGA

As famílias de Pelé e Rose deram excelente acolhida aos jornalistas, locutores e fotógrafos que trabalharam na cobertura das cerimônias realizadas ontem.

PRÊMIO ESSO

A revelação de que Pelé iria se casar e a cobertura do enlace rendeu ao Jornal da Tarde um Prêmio Esso de jornalismo, na categoria equipe, naquele ano.

JORNAL DA TARDE

Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira.

Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

ACERVO ESTADÃO

Share this content:

Publicar comentário