Menos de 10% dos moradores de Juiz de Fora recebem alertas de celular da Defesa Civil sobre chuva
Juiz de Fora: Equipes trabalham na limpeza da cidade após nova chuva
Cidade registra dezenas de mortos e milhares de desabrigados desde segunda, 23. Crédito: Pedro Kirilos/Estadão
Apenas 9,3% da população de Juiz de Fora (MG), o equivalente a 45.061 pessoas, está cadastrada para receber mensagens de texto da Defesa Civil municipal e estadual.
O município de meio milhão de habitantes localizado na Zona da Mata mineira teve o mês de fevereiro mais chuvoso de sua história, levando a deslizamentos que resultaram em tragédia, com 56 mortes registradas até o momento, e mais de 4.200 desabrigados.
Questionada, a prefeitura não respondeu sobre o contingente total alertado para os riscos provocados pela tempestade.
Moradores do bairro Três Moinhos, em Juiz de Fora, afirmam não ter recebido alertas da Defesa Civil Foto: Pedro Kirilos
O número de cadastrados da cidade no sistema de alertas por SMS consta no Plano de Contingência municipal para resposta aos desastres ocasionados pelas chuvas, de outubro de 2025.
Além das mensagens por SMS, os avisos podem ser publicados em outros canais: pela plataforma de Interface de Divulgação de Alertas Públicos (Idap), que atinge TV por assinatura, Google Alertas, Whatsapp, Telegram, Cellbroadcasting, e as redes sociais da Defesa Civil, da Prefeitura de Juiz de Fora e Prefeitura em Alerta.
Um alerta extremo foi enviado pela Defesa Civil na tarde de terça-feira, 24, advertindo sobre o risco de deslizamentos na cidade, atingida por chuva extrema desde a noite de segunda. “Dirija-se a locais seguros e evite trafegar em áreas de risco”, disse o aviso.
Alertas não chegam ou chegam quando já chove, dizem moradores
Para juiz-foranos que vivem em áreas de risco, o alcance das mensagens ainda é pouco efetivo: ou não vêm, ou chegam tarde demais.
Moradora do bairro Três Moinhos desde que nasceu, Márcia Rogéria da Silva, de 52 anos, conta que nunca recebeu avisos durante as chuvas, seja de funcionários da prefeitura, Defesa Civil ou Corpo de Bombeiros. “Não recebemos nenhum alerta, nunca tivemos treinamento, ninguém vem aqui. Só aparecem depois da tragédia”, conta.
Adriana Aparecida, moradora do bairro Três Moinhos de Juiz de Fora Foto: Pedro Kirilos
Os únicos alertas recebidos pelos moradores de Três Moinhos foram os emitidos pela Defesa Civil. Adriana Aparecida Vieira, de 59 anos, que retornou à casa onde morava nesta quinta-feira, 26, para retirar alguns objetos pessoais, diz que o alerta é recebido sempre que a chuva já está começando.
“Desta vez, começamos a receber os alertas da Defesa Civil no celular. Foi pouco antes de começar a chover. Acionamos os Bombeiros desde segunda e ninguém apareceu ainda”, explica.
No abrigo montado na Escola Municipal Raymundo Hargreaves, no bairro Bom Jardim, moradores que ficaram desabrigados contam que a chuva chegou de repente. O mecânico João Antônio, de 43 anos, mora em uma das casas que precisou ser evacuada no bairro Paineiras. Ele conta que também não recebeu nenhum alerta das chuvas.
“Por aqui, não tem sirene e não recebemos nenhum aviso. Eu mesmo não recebi nem o alerta da Defesa Civil”, diz.
Problema nacional
A emissão de alertas com antecedência é um problema do município no enfrentamento a desastres conhecido há anos.
Para o professor da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Jordan Henrique de Souza, a cidade avançou em anos recentes na implementação de tecnologias de monitoramento e gestão, adotando uma sala de situação para monitorar condições meteorológicas e níveis dos cursos d’água. Mas considera faltar preparo para que a população em áreas de risco saiba o que fazer diante dos alertas.
Coordenador da pós-graduação de Gestão Pública em Proteção e Defesa Civil, Souza participou de uma avaliação da resiliência a desastres de Juiz de Fora, realizada em 2020 pela universidade, em parceria com a prefeitura e os Bombeiros. Ele avalia o plano atual de Juiz de Fora de resposta às chuvas como “bem robusto”, especialmente comparado a outras cidades.
“Veio sendo aprimorado ao longo dos anos, a gente observa que foi agregando alguns conhecimentos adquiridos ao longo dos períodos de chuva, mas ainda não consegue mobilizar a população para que ela também promova as ações de proteção e defesa civil. Isso infelizmente ainda está muito longe de chegar em uma condição mínima”, diz.
É esse o papel dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs), grupo de voluntários capacitados por agentes públicos para agir em situações de desastre. No Plano de Contingência de Juiz de Fora, eles aparecem como um dos “braços” do sistema de alerta do município, pela disseminação de informações nos grupos onde estão inseridos.
A prefeitura informou em nota ao Estadão que Juiz de Fora conta atualmente com 148 voluntários capacitados, que trabalham em dois turnos colaborando com o órgão.
Segundo o pesquisador da UFJF, o gargalo da participação comunitária é nacional e uma responsabilidade compartilhada das prefeituras com defesas civis estaduais e o governo federal. Prefeituras devem identificar e cadastrar lideranças comunitárias para ter acesso prioritário aos alertas e mobilizar a população local para deixar a área de risco e ir para o abrigo designado.
“Numa cidade de 500 mil habitantes com uma série de áreas de risco, não adianta a gente achar que a Defesa Civil, a Prefeitura vai conseguir abrir toda essa frente de atendimento”, afirma.
É possível se cadastrar para receber alertas da Defesa Civil nacional pelo WhatsApp enviando uma mensagem para o número (61) 2034-4611.



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