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EUA buscam alternativas ao alumínio do Oriente Médio. E o do Brasil é uma delas

EUA buscam alternativas ao alumínio do Oriente Médio. E o do Brasil é uma delas

A paralisação do Estreito de Ormuz também afeta o mercado global de alumínio. Ela já levou dois dos maiores produtores da região, Qatar e Bahrein, a suspender entregas a seus clientes. Os EUA dependem fortemente de importações, e o Oriente Médio respondeu por quase um quinto do alumínio importado pelo país no ano passado.

Agora, os compradores americanos da commodity correm de alternativas. Elas incluem Brasil, Indonésia, Islândia e Noruega, de acordo com Timna Tanners, analista do Wells Fargo Securities.

É que mesmo interrupções breves no fornecimento de alumínio podem causar caos nas fábricas, que costumam comprá-lo no sistema just-in-time – pedindo de acordo com a demanda de produção, sem fazer estoque.

Andy Massey, da Bonnell Aluminum, disse que sua empresa – que molda o alumínio para uso em automóveis e materiais de construção – está buscando fornecimento em mercados como Índia e Austrália. O fabricante, sediado na Geórgia, pode até recorrer ao mercado doméstico para entregas de curto prazo, caso haja metal disponível fora dos contratos anuais.

“Estamos todos correndo para entender o que está acontecendo” no Oriente Médio, disse Massey, vice-presidente de metais, compras e transporte da Bonnell. “Preciso encontrar fornecedores alternativos nos próximos dois dias – rápido – e garantir que não vamos pagar caro demais.”

A turbulência no abastecimento do Oriente Médio chega em um momento particularmente delicado para os consumidores americanos de alumínio. Eles já estavam pressionados pelas tarifas de importação sobre o metal, que elevaram os preços domésticos e restringiram o fluxo vindo do Canadá, o maior fornecedor estrangeiro dos EUA.

A RM-Metals, fornecedora de produtos metálicos especiais sediada em Nova Jersey, enfrenta dilema semelhante ao da Bonnell. A empresa busca fontes alternativas enquanto parte de seus embarques permanece retida em Dubai, segundo o vice-presidente Sam Desai.

“A Coreia é uma ótima opção agora”, disse Desai, acrescentando que sua empresa também está avaliando fornecedores do norte da Europa. “Está ficando muito difícil porque o próprio preço do alumínio subiu” desde o início da guerra contra o Irã.

Os preços do metal leve negociados na Bolsa de Metais de Londres dispararam para o nível mais alto desde 2022 nesta semana. O chamado prêmio do Meio-Oeste americano – valor acrescido às referências globais para entregar alumínio na região – estava em US$ 1,065 por libra na quarta-feira, empatando com o recorde atingido em fevereiro. Antes da crise com o Irã, os fabricantes americanos já pagavam alguns dos preços mais altos do mundo por conta das tarifas de 50% de Trump.

Embora o alumínio indiano seja a substituição marítima mais provável para os consumidores americanos, o transporte pelo Pacífico leva cerca de 60 dias, segundo Jean Simard, presidente-executivo da Associação de Alumínio do Canadá.

Já os embarques do Canadá — a alternativa mais óbvia para os compradores americanos – continuam caindo sob as tarifas de Trump. Os produtores canadenses têm preferido cada vez mais o mercado europeu, onde os retornos têm sido mais atraentes do que vender para os EUA. Ao mesmo tempo, a expectativa de que as tarifas possam ser reduzidas ou revogadas nos próximos meses deixa os compradores americanos receosos de fechar grandes volumes, com medo de pagar caro demais caso as taxas sejam revertidas.

Poderia ser “um momento oportuno para revisar” as tarifas americanas sobre o alumínio canadense, disse Simard. Essas taxas, que se enquadram em uma lei que permite tarifas em determinados setores por razões de segurança nacional, não foram afetadas pela recente decisão da Suprema Corte que derrubou outras tarifas de Trump.

Cerca de 6 milhões de toneladas de alumínio primário – metal ainda não reciclado – estão agora represadas no Oriente Médio, segundo Simard. Segundo ele, a maioria das fundições da região tem cerca de 30 dias de estoque de alumina, a matéria-prima usada na produção do alumínio.

Com a persistência da crise no Irã, os produtores de alumínio do Golfo podem ter de reduzir a produção, pois o quase fechamento do Estreito de Ormuz pode levar ao esgotamento das reservas de alumina. Esses cortes de produção teriam um impacto duradouro no abastecimento global.

O conflito regional deve agravar o déficit global de alumínio neste ano, segundo o Bank of America.

“Como o Oriente Médio responde por cerca de 9% da produção mundial e o fornecimento está em risco, elevamos nossa previsão de déficit para 1,5 milhão de toneladas, ante 1 milhão de toneladas”, disseram analistas do banco liderados por Michael Widmer em nota divulgada na quinta-feira.

Alguns fornecedores já estão suspendendo operações. A Qatalum, controlada conjuntamente pela produtora estatal de alumínio do Qatar e pela norueguesa Norsk Hydro ASA, anunciou na terça-feira o início de uma paralisação controlada da produção devido à escassez de gás natural, acrescentando que uma retomada completa pode levar de seis a doze meses.

“Isso pode ser apenas a ponta do iceberg. Outras fundições podem ser afetadas, o que ampliaria ainda mais o impacto”, disse Tanners. “As fundições de alumínio precisam operar a plena capacidade — do contrário, simplesmente fecham. Não há solução rápida para isso.”

Por Yvonne Yue Li, Jacob Lorinc e Mathieu Dion

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