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Correndo como um indígena – 16/03/2026 – No Corre

Correndo como um indígena – 16/03/2026 – No Corre

Por correr diariamente dezenas e dezenas de quilômetros em meio às escarpas mexicanas das Barrancas del Cobre, um cânion muito maior que o Grand, aquele do Arizona, os tarahumaras ganharam a fama de maiores corredores entre os povos originários das Américas e talvez de todo o mundo.

O jornalista estadunidense Christopher McDougall é ainda mais superlativo. Para ele, como escreve já nas primeiras páginas de seu best-seller “Nascido para Correr”, de 2009, trata-se de “superatletas”, “os maiores corredores de todos os tempos”.

O livro fez sucesso estrondoso e gerou um hype em torno da corrida descalça, ou minimalista, que os rarámuris (algo como “de pés ligeiros”), como os tarahumaras também são conhecidos, praticam, ao calçar uma espécie de alpargata rústica. Mesmo quando em ultramaratonas competitivas, na própria região ou alhures, eles ignoram os tênis de corrida.

McDougall já havia viajado para as Barrancas del Cobre, enviado pela revista Runner’s World, e seu livro atira para muitos lados. É menos sobre os tarahumaras do que talvez sobre sua própria faceta de corredor amador frustrado, com um histórico de lesões limitantes (“parecia que uma lasca de gelo invisível estava encravada na sola do meu pé”) e o veredicto médico de que, com suas medidas, 1,93 m e 104 kg, deveria trocar o cascalho pelo basquete.

Mas desejoso por correr uma ultramaratona com os tarahumaras, ele decidiu fazer tudo o que os indígenas faziam: alimentação principalmente vegetariana, com ênfase na chia, nos feijões e numa espécie de farinha de milho, o pinole; grande volume de corridas frequentes; uso de tênis sem amortecimento, que se tornaria logo depois, por conta exatamente do sucesso do livro, dominante na indústria.

Digressão: a onda não duraria muito, e os muitos modelos nascidos ali logo morreriam, quando os fabricantes conseguiram tirar o peso e a rigidez de seus produtos “estruturados”, possibilitando finalmente a coexistência da leveza com o amortecimento.

Eis uma história que os teóricos do branding talvez consagrem no futuro: como, em algum momento do século, Nike, Adidas, New Balance etc. conseguiram convencer os consumidores a pagar (bem) por algo cujo estado da arte era, no limite, coisa nenhuma –ou, vá lá, uma capa de borracha para proteger os pés e um cabedal para envolvê-los.

Sou pescetariano e entusiasta dos tênis minimalistas, que reencontrei há poucas semanas por indicação de um leitor desta coluna, fabricados por uma empresa gaúcha, a Fiber, de que falei aqui, mas nunca avancei para além dos 42,2 km da maratona, como fazem os tarahumaras cotidianamente.

Mas creio haver um outro ponto de contato com eles que suponho útil também para quem pensa se submeter, ao menos uma vez, a esse fetiche dos fetiches que é a maratona. Os tarahumaras encaram a corrida de uma maneira, pode-se dizer, paradoxal: ao mesmo tempo em que ela é modal de transporte, ou seja, exige-lhes resignação pragmática, é instrumento de elevação espiritual.

Dito de outra forma: eles não correm para mostrar para alguém que correm; não correm uma determinada prova uma ou duas vezes na vida para conquistar um novo status aos olhos de uma comunidade; não correm para se sentirem à vontade para registrar numa rede social, o LinkedIn, digamos, uma frase deste tipo: “Sou maratonista”.

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