Disputa na Justiça deve fazer com que 30 mil pessoas mudem de cidade no Nordeste; entenda
Em 55 segundos, TCE do Sergipe decidiu pagar até 2 milhões por conselheiro
Sob a rubrica ‘acúmulo de jurisdição’, Corte liberou R$ 30 milhões a 16 conselheiros ativos e inativos; tribunal não respondeu quando começará a pagar. Crédito: Reprodução de vídeo no YouTube
O Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) confirmou decisão judicial que obriga Aracaju, a capital de Sergipe, a devolver 11,4% de seu território à vizinha São Cristóvão. Além de perder parte expressiva de sua extensão territorial (20,7 km²), cerca de 30 mil moradores de Aracaju se tornarão são-cristovenses. O julgamento aconteceu no último dia 11, às vésperas do aniversário da capital, que completou 171 anos na terça-feira, 17.
A ação principal, movida pela Prefeitura de São Cristóvão, já foi julgada em todas as instâncias e Aracaju perdeu. O que a Prefeitura de Aracaju está tentando é anular essa decisão, mas o TRF entendeu que não há elementos novos que justifiquem a anulação. Ainda cabe recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Procurada pela reportagem, a prefeitura de Aracaju afirmou em nota que aguarda a intimação oficial para ter acesso ao teor integral do acórdão (veja mais abaixo).
A prefeita de Aracaju, Emília Corrêa (Republicanos), usou as redes sociais para se manifestar sobre o caso. “Quero tranquilizar os moradores da Zona de Expansão: os serviços essenciais da Prefeitura de Aracaju continuam funcionando normalmente. Escolas, saúde, limpeza urbana e todas as políticas públicas seguem garantidas à população.”
Mapas com novos limites territoriais de Aracaju e São Cristóvão. Foto: Reprodução/Prefeitura de São Cristovão
O que dizem as prefeituras: Aracaju
Na ação que foi julgada na semana passada, a Prefeitura de Aracaju alegou que existe uma realidade consolidada há mais de 70 anos, segundo a qual a capital sempre administrou a região em disputa, especialmente a área do Mosqueiro e da chamada Zona de Expansão (povoado Areia Branca, povoado São José, povoado Robalo e povoado Terra Dura). Disse ainda que diversos serviços públicos são prestados por Aracaju desde a década de 1950 e a população local possui identidade e sentimento de pertencimento a Aracaju.
Em nota enviada ao Estadão após a decisão da semana passada, a prefeitura de Aracaju afirmou que aguarda a intimação oficial para ter acesso ao teor integral do acórdão.
“Após a análise detalhada dos fundamentos da decisão, a Procuradoria-Geral do Município avaliará as medidas jurídicas cabíveis, incluindo a interposição de recurso às instâncias superiores.
A prefeitura reafirma o compromisso com a defesa dos interesses da população e da administração municipal e continuará adotando todas as providências legais necessárias para assegurar a continuidade das políticas públicas e dos serviços prestados aos moradores da Zona de Expansão.”
O que dizem as prefeituras: São Cristóvão
Já São Cristóvão diz que essas localidades integram uma região que, ao longo das últimas décadas, passou a ser administrada pela capital sergipana, mas historicamente possui vínculos territoriais com São Cristóvão.
Segundo os argumentos da prefeitur de São Cristóvão, a transferência das áreas para Aracaju teria sido feita para atender interesses políticos, sem a realização de um plebiscito previsto na Constituição.
Cidade de São Cristóvão foi à Justiça para recuperar parte do seu território anexado a Aracaju Foto: Heitor Xavier/PMSC/Divulgação
O que diz a decisão do TRF-5
O colegiado do TRF-5 decidiu, por unanimidade, julgar improcedente a ação rescisória apresentada pela prefeitura de Aracaju.
Os desembargadores acompanharam o voto do relator, Paulo Cordeiro, para quem “a prestação de serviços públicos ou a administração de determinada área por longo período não tem o condão de legitimar situação territorial fundada em norma inconstitucional”. Segundo ele, a alegada situação fática não é suficiente para afastar a exigência constitucional de plebiscito prévio para alteração de limites municipais.
A disputa judicial envolve áreas localizadas na região atualmente conhecida como Zona de Expansão de Aracaju, que compreende localidades como os bairros Santa Maria, Mosqueiro, Robalo, Areia Branca e Matapuã, entre outras áreas. Inicialmente, o pedido incluía uma parte da Praia do Mosqueiro, muito buscada por turistas. Na revisão da cartografia, a praia deixou de aparecer como área em litígio.
O que muda para as cidades
Na área em disputa vivem cerca de 30 mil pessoas e, com a mudança, a população de São Cristóvão passa de 95 mil habitantes para 125 mil. Já Aracaju cai de 603 mil para 573 mil moradores.
Além disso, a transferência envolve 6,7 mil imóveis, 14 escolas com mais de 6 mil alunos, três postos de saúde e 31 km de ruas pavimentadas, além de redes de água e energia, praças e áreas verdes. A receita de Imposto Predial e Territorial Urbano nessa região é estimada em R$ 5,2 milhões anuais, dinheiro que passaria de uma cidade para a outra. Como alguns repasses da União, como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), levam em conta a população, São Cristóvão deverá ter ganho de receita.
No processo principal, a Justiça Federal determinou a realização de estudos técnicos para subsidiar a redefinição oficial desses limites, considerando documentos históricos, mapas e aspectos administrativos da formação territorial da região.
Com a decisão, o processo principal segue seu trâmite regular na Justiça Federal, aguardando a conclusão do estudo técnico que está sendo elaborado pelo governo do Estado de Sergipe. O levantamento deverá subsidiar a atualização cartográfica e contribuir para a definição definitiva dos limites territoriais entre os municípios. O cronograma prevê conclusão até abril de 2026.
Praia do Mosqueiro, em Aracaju Foto: Prefeitura de Aracaju/Divulgação
Praia do Mosqueiro
Moradores de bairros localizados na Zona de Expansão se mobilizaram contra a mudança, realizando passeatas e atos públicos. O Movimento Somos Aracaju usou as redes sociais para se opor à transferência.
A prefeitura de São Cristóvão reconhece que existe resistência de parte dos moradores da região afetada. “O que temos feito é dizer que temos condições de assumir a área, mas entendemos que isso precisa ser feito de forma gradual e com diálogo entre as duas gestões para diminuir eventual resistência”, diz, por meio da assessoria de imprensa.
A ampliação do território de São Cristóvão não vai atingir a Praia do Mosqueiro, uma das mais tradicionais de Aracaju, embora abranja uma parte do bairro. “Para ter praia de novo, teríamos que recuperar tudo o que um dia foi de São Cristóvão”, diz a assessoria.
Antiga capital de Sergipe
A cidade de São Cristóvão é conhecida pelo seu patrimônio histórico, como a Praça São Francisco, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e declarada pela Unesco como patrimônio da humanidade. Em junho de 1820, quando Dom João VI decretou a emancipação de Sergipe da Bahia, São Cristóvão tornou-se a capital do novo Estado.
Em março de 1855, atendendo a pleito dos senhores de engenho que precisavam de um porto para escoar a produção de açúcar, a capital foi transferida para Aracaju. Historiadores afirmam que, em 1954, quando a cidade enfrentava crise de energia elétrica, o prefeito de São Cristóvão cedeu sua área litorânea à capital em troca da instalação de um gerador elétrico na cidade.
Atualmente, a maior concentração populacional de São Cristóvão está na região do Jardim Rosa Elze, que fica mais próxima de Aracaju – a 10 km do centro da capital. Os 55 mil moradores dessa região trabalham e usam serviços públicos, como transporte coletivo e unidades de saúde, de Aracaju. O bairro se expandiu após a instalação do campus da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que impulsionou o desenvolvimento da região.



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