A mesma IA que ajuda a educação pode cristalizar a preguiça intelectual
Imagem criada pela IA mostra o Saci Pererê com duas pernas e o Curupira com os pés virados para frente – Ilustração: Paulo Silvestre
O ano começou com o mundo questionando o impacto negativo da tecnologia digital em crianças e adolescentes. A Austrália puxou a fila, ao banir em dezembro redes sociais a quem tem menos de 16 anos, prática que pode ser replicada em muitos países já em 2026. No Brasil, começou a valer nesta terça (17) o ECA Digital, que visa proteger jovens em plataformas online, incluindo privacidade, segurança e uso responsável de tecnologias.
A bola da vez é a inteligência artificial. Ela chegou por último, mas com potencial de trazer tanto benefícios incríveis quanto problemas enormes. E isso vale para adultos, adolescentes e crianças.
Proibir essas tecnologias não é trivial. Os prejuízos que elas causam são fartamente documentados, em especial para os mais jovens. Por outro lado, há benefícios evidentes. Mas o ambiente digital não foi pensado para jovens, e agora o mundo tenta às pressas corrigir esse erro.
Em janeiro de 2025, o Brasil limitou os celulares nas escolas a usos acadêmicos: eles não foram proibidos, mas só podem ser usados sob orientação dos professores. Fora disso, devem ficar desligados e guardados.
Diversas pesquisas apontam que essa restrição quase dobrou a atenção nas aulas, melhorando o desempenho acadêmico. Houve também redução do bullying virtual e aumento da socialização presencial.
No caso da IA, ela pode ajudar a educação com um ensino personalizado, adaptando o ritmo e o conteúdo às necessidades de cada aluno, aumentando o engajamento e reduzindo lacunas de conhecimento. Ao automatizar tarefas burocráticas, liberando os professores para o suporte pedagógico direto, ela promete ampliar a acessibilidade, transformando a escola em um ambiente mais inclusivo, seguro e orientado por dados precisos.
No dia 12 de março, o Ministério da Educação (MEC) propôs caminhos para esse bom uso ao publicar o seu Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação. Mas há problemas graves que vêm no mesmo pacote tecnológico.
O maior risco educacional da IA é a substituição do esforço intelectual. Talvez você mesmo já sinta isso em suas atividades cotidianas.
“Como fazer com que os alunos pensem e resolvam questões diante de uma tecnologia que dá respostas muito rapidamente”, questiona o professor da PUC-SP David de Oliveira Lemes. “Aí entra o trabalho do professor para reforçar o senso crítico e sobretudo mostrar para o aluno que ele não pode, de maneira alguma, terceirizar as questões cognitivas, tendo que duvidar, testar, entender, e não só aceitar”, explica.
Esse medo de que a tecnologia enfraqueça processos cognitivos, tornando-nos “preguiçosos” surgiu com o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022. E se essa tecnologia não for conscientemente usada para ampliar nossas capacidades, em vez de só nos dar respostas prontas, ele pode se concretizar.
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“A IA transforma as formas de pensar, as formas da sociedade ser”, destaca Ana Lucia de Souza Lopes, professora e líder do Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Então, na educação, eu não a posso tratar como se fosse um liquidificador, em que só aperto um botão”, acrescenta.
Os pesquisadores também alertam que essas plataformas não são neutras, carregando vieses culturais, valores e até a maneira de falar dos países de origem. Mesmo hoje, depois de muitas atualizações, elas continuam falhando ao tratar de temas brasileiros, como no exemplo dessa imagem com o Saci Pererê representado com duas pernas e o Curupira com os pés virados para frente. Em médio prazo, isso pode enfraquecer aspectos das culturas de usuários que não sejam daqueles países e alterar sua maneira de pensar, seus valores e como falam.
Aspectos mercadológicos podem agravar isso. Muitas big techs oferecem acesso até gratuito a seus serviços para professores e estudantes. Longe de serem movidas apenas por boas intenções, elas motivam o alerta dos dois professores de que a educação não pode terceirizar sua agenda para empresas cujo modelo de negócio depende da captura de dados alheios e da criação de dependência tecnológica.
No final, as angústias de educadores com a IA não se diferenciam essencialmente das de profissionais de outras áreas. Porém, por atuarem em uma atividade que forma cidadãos e lhes confere habilidades para a vida, esses aspectos éticos ganham uma dimensão gigantesca.
Não há espaço para cometermos, com a inteligência artificial, os mesmos erros dos usos das redes sociais e dos smartphones por crianças e adolescentes. Se hoje sofremos para corrigi-los, uma IA mal usada pelos mais jovens pode causar danos irreparáveis ao seu futuro.
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