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Boxe ajuda adolescentes da Groenlândia a lidar com trauma – 20/03/2026 – Esporte

Boxe ajuda adolescentes da Groenlândia a lidar com trauma – 20/03/2026 – Esporte

William está nervoso, mas seus olhos azuis brilham determinados. O gongo soa e ele solta um grito abafado pelo tumulto da sala: esta noite em Nuuk, este adolescente de quinze anos luta por sua mãe, que tirou a própria vida dois anos antes.

Em 2023, o suicídio representou 7,4% da mortalidade da Groenlândia, que apresenta uma das taxas mais altas do mundo. Uma “epidemia”, dizem alguns groenlandeses, que afeta especialmente os adolescentes e os jovens adultos.

“Vamos lá, acabe com esse cara!” Em meio aos gritos da multidão, ao cheiro de suor e à imensa bandeira da Groenlândia estendida sobre o ringue, William esquiva-se dos socos de seu oponente dinamarquês.

Em seguida, um golpe direto e um jato de sangue. William acaba desabando nos braços do árbitro.

“Limpar a mente”

“Perder me arrasou”, diz timidamente, afundado no sofá de sua sala. Longe do ringue, a voz de William se apaga e seu olhar se torna distante.

“Na manhã da luta, chorei pensando nela. Tinha prometido a ela que venceria”, relembra.

Na parede da sala, uma mulher de uns quarenta anos sorri em uma fotografia. Após a morte de sua mãe, William se refugiou primeiro no álcool e nas drogas.

Seu irmão Kian, que hoje tem 19 anos, escolheu a adrenalina do esporte e o incentivou a colocar as luvas para “limpar a mente”.

Para os dois irmãos, o boxe tornou-se um refúgio, um lugar para encontrar pessoas “positivas”. Era também uma forma de homenagear a mãe deles, Mette, ex-campeã de artes marciais da Groenlândia.

“Quando éramos pequenos, usávamos as medalhas dela como troféus e perdemos algumas”, conta William. “É como se eu devesse isso a ela”.

Originária do norte da Groenlândia, Mette foi colocada em um orfanato em Nuuk porque seus pais estavam ausentes.

Um estudo da revista The International Journal of Circumpolar Health mostra que os jovens groenlandeses continuam sofrendo os efeitos dos traumas vividos por seus antepassados.

“Todos nós conhecemos um ou dois parentes ou amigos que cometeram suicídio”, diz Kian, “e até muitos mais.”

“Não faz muito tempo, perdi dois amigos”, acrescenta William, hesitante.

“Eles têm raiva dentro de si”

Na sala de treinamento em Nuuk, cerca de vinte jovens resmungam enquanto fazem as flexões impostas por Philippe Andersen, um ex-boxeador de 27 anos.

“É para disciplina”, ele rosna. “Dois meses antes de uma luta, eles não podem consumir nada: álcool, cigarros… nada.”

Alguns sofreram bullying na escola, perderam entes queridos ou enfrentam problemas sociais, “mas quando estão no ringue, não pensam mais nisso”, garante o treinador.

“Eles têm raiva dentro de si”, assim como ele próprio já teve. “O boxe os liberta do cotidiano.”

Quando a noite cai e a sala se esvazia, as ruas de Nuuk se enchem de adolescentes. Alguns confessam que ficam do lado de fora para fugir do ambiente de casa.

No litoral, não é raro ver um jovem, sozinho, contemplando o mar. Atrás, longos blocos de edifícios de inspiração soviética dominam o penhasco, testemunhas da campanha de urbanização da Dinamarca nos anos 70.

Na fachada descascada do Bloco T, uma discreta instalação luminosa presta homenagem às vítimas do suicídio.

“Virando a página”

Catapultadas de maneira artificial para a era industrial, centenas de famílias inuit —esquimós— abandonaram suas aldeias para se amontoar em apartamentos em Nuuk.

Um desenraizamento que, segundo The Lancet, deixou um profundo trauma, fazendo com que a taxa de suicídio disparasse nos anos 80, a geração de Mette.

Apesar de uma grande necessidade de apoio psicológico, o isolamento das colônias e a falta de profissionais que dominassem o kalaallisut, a língua groenlandesa, limitaram consideravelmente o acesso ao atendimento.

Esse problema continua atual, já que a maioria das consultas é realizada online. Algo que indigna Kian.

No entanto, ele diz que sua geração está mais disposta a expressar seu sofrimento, que também está oculto sob um forte tabu cultural.

Nos últimos anos, as autoridades reforçaram os centros de escuta e começaram a descentralizar a formação de profissionais de saúde mental, um primeiro passo para melhorar o acesso à ajuda, apesar de um êxodo rural vigente.

Em alguns meses, William terá que ir para a Dinamarca —reino do qual a Groenlândia faz parte— para continuar seus estudos.

Um ano longe de seus amigos e de seu irmão mais velho. “É… é muito difícil”, suspira.

Incentivado por seus treinadores, Kian espera se juntar a ele lá para tentar uma carreira internacional e integrar a seleção dinamarquesa de boxe.

Uma maneira de “virar a página”.

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