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IA pode enfraquecer ainda mais a dieta noticiosa da população

IA pode enfraquecer ainda mais a dieta noticiosa da população

 IA pode enfraquecer ainda mais a dieta noticiosa da população

Quando lhe pediam ingressos, Cacilda Becker respondia: “não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender” – Foto: Arquivo Nacional/reprodução

A inteligência artificial tornou-se uma força irrefreável e com benefícios evidentes. Mas, como acontece com muitas transformações incríveis, ela também apresentará efeitos colaterais se não for bem usada. E um deles chega a ser contraintuitivo, pois, apesar de prometer facilitar a compreensão de todo o conhecimento humano, a IA está nos deixando menos informados.

Isso já se debate aqui e ali. O que não se fala muito é que os próprios veículos de comunicação têm sua parcela de culpa nisso.

Essa tecnologia vem potencializando hábitos alienantes criados e cristalizados pelas redes sociais. Grande parte do que se publica nessas plataformas é conteúdo jornalístico profissional e principalmente comentários sobre ele. Por conta disso, há anos, as pessoas vêm se informando cada vez menos pela mídia e se deformando cada vez mais pelas redes sociais.

Buscadores e redes sociais ainda indicam as fontes das notícias, de modo que um usuário mais interessado pode se aprofundar diretamente no veículo que as publicou. A IA, por sua vez, cria um resumo sem mencionar de onde aquilo veio. Como seus textos são escritos para agradar e convencer, eles têm satisfeito as pessoas, mesmo quando estão errados.

Buscadores, redes sociais e a IA não são veículos de comunicação e não têm compromisso com a verdade. Eles querem só o nosso engajamento.

Com a experiência de quem trabalha com jornalismo digital desde quando ele ainda era gestado nas entranhas da Internet comercial, eu digo que essa dissociação entre o jornalismo e seu público começou há 30 anos, quando as empresas de comunicação passaram a dar de graça seu conteúdo.

Lá atrás, ninguém sabia direito o que era a Internet. Cheguei a ouvir de colegas respeitados, em 1995, que ela era um modismo que não chegaria ao fim da década.

Naquele cenário, as empresas de comunicação tateavam para encontrar seu espaço no mundo digital. E, como na pré-história da Internet só se pagava pelo acesso, elas entenderam que, para se posicionar, deveriam entregar, sem custos, o resultado de seu valioso trabalho.

Isso me lembra a atriz Cacilda Becker. Quando algum oportunista lhe pedia ingressos para suas peças, ela respondia: “não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender”.

O jornalismo deveria ter aprendido algo com a sabedoria da diva do teatro.

Menos de uma década depois, o Google já tinha criado um império digital com conteúdo alheio. As empresas de comunicação sapatearam, mas ele se defendia alegando estar fazendo apenas “uso justo” de trechos das notícias.

O gigante também alegava que direcionava audiência aos sites, uma verdade que custaria caríssimo ao jornalismo mais tarde. Depois de darem de graça seu conteúdo, essas empresas se acomodaram ao tráfego vindo do buscador e, depois, das redes sociais.

Foi o mais grave dos seus erros. No fim das contas, elas apenas devolvem parte da audiência que roubam dos produtores de conteúdo. Pior foi o efeito sobre as receitas publicitárias, que minguaram nos veículos e explodiram nas plataformas.

Tudo isso tirou do jornalismo a liderança na organização do debate público. É a “pá de cal” que até hoje muita gente não percebe. Jornalistas sérios foram preteridos pelo “tio do Zap” e por poderosos que manipulam as redes sociais, cúmplices da desinformação.

E assim vimos 8% dos brasileiros afirmando, em 2024, que a Terra é plana, enquanto outros 3% não tinham certeza. E, na semana em que a Artemis II regressou de sua volta à Lua, 33% não acreditavam que o ser humano foi até lá. Os dados são do Datafolha.

Agora a IA, com sua opacidade e sua sedução, agrava esse quadro ao afastar ainda mais as pessoas do noticiário profissional.

Se a humanidade quiser continuar tentando chegar às estrelas, é melhor passar a se informar por fontes confiáveis, em vez de robôs bajuladores. Caso contrário, trilharemos, a passos firmes, o caminho de volta para a Idade Média.


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